VITA SANCTI DRINCISALOTIS
Ouçam as sagradas palavras que nos foram reveladas pela graça das potestades superiores e pela inspiração da Grande Divindade Oculta (santo seja seu nome), para nos libertar das intempéries semanais do Senhor Maligno do Mundo como o conhecemos. Mensagem há muito tempo já pregada por Dionísio nas terras do Oriente.
Das sagradas terras de Albion ou Ængeland, ao norte do rio Humber, no antigo reino da Northumbria, de Newcastle veio o abençoado Sir Drinksalot, louvado seja seu nome! Nascido em nobre família de longa estirpe, ainda jovem em seus anos, rumou para o oriente para livrar a Terra Santa da presença dos infiéis. Lutou em muitas batalhas em nome do Senhor. Porém, em batalha foi capturado e com os mais infiéis entre os infiéis conheceu os segredos ritualísticos das Noites Antigas, da Alcova de Ishtar e do Mel Esmeralda de Alamut. Após anos de desvarios fumando a essência dos demônios semíticos e hashish em narguiles profanos, Sir Drinksalot cruzou o deserto de pés descalços com a relíquia sagrada da Cabeça de São João Batista. No meio do deserto, sob a implacável chama do Senhor, Sir Drinksalot estava preste a morrer pela inanição. Mas no quadragésimo segundo dia, Sir Drinksalot teve uma visão. São Dionísio lhe apareceu e disse que uma grande missão lhe estava reservada em sua terra natal, e lhe revelou os mistérios que envolviam as Bacantes. Quando se foi, Sir Drinksalot encontrou, onde antes estava o Santo Dionísio, um barril de vinho sagrado que lá se materializou. O santo guerreiro tomou de seu conteúdo e, revigorado, continuou seu caminho até a Sagrada Jerusalém.
Nos arredores da Cidade Eterna, Sir Drinksalot confraternizou com hereges mitraístas, devotos do arianismo e zombeteístas. Por três noites e três dias, grande fuzarca se fez e Sir Drinksalot partilhou de seu vinho e de seu pão nas cerimônias em honra às Segundas Bodas de Canã. Ao fim do festival secreto, Sir Drinksalot contou com o auxílio de um educado senhor, que se apresentou a ele dizendo que estava por lá viajando há muito tempo. O estranho se revelou ser um homem de posses e bom gosto. Juntos, eles rumaram até a ilha de Chipre. O estranho senhor se despediu de Sir Drinksalot dizendo que havia sido um prazer conhece-lo e que esperava que o santo soubesse seu nome, pois muito estaria para acontecer e que por tudo o culpariam, mas que em nada ele seria responsável, a não ser os próprios filhos de Adão. E com essas palavras se foi.
Sem compreender muito bem o mistério nas palavras de tão gentil homem, o grande Drinksalot buscou abrigo na casa de um velho phísico de barbas brancas do povo judeu chamado Asmoday, que criava em sua casa um touro e um leão de aparências estranhas. Sir Drinksalot acreditou ainda estar sob influência do elixir de Dionísio e ignorou os animais. Sem mais nada ter a oferecer como pagamento, ofertou a santa relíquia de São João Batista ao velho hebreu. Este aceitou prontamente com um grande sorriso, pois dizia colecionar as sagradas relíquias das cabeças do Santo Batista. Em troca, o judeu concedeu pouso naquela noite a Sir Drinksalot, ofereceu-lhe uma cerveja escura e com um gosto forte como enxofre. Enquanto bebiam, o velho se revelou versado nos conhecimentos do oculto e da natureza de D-us. Contou ao santo guerreiro os mistérios da Árvore da Vida, das ditas sephiroth que levam até ao Criador e das qliphoth que levam aos reinos abissais, onde dizia habitar. No final da noite, o judeu entregou a Sir Drinksalot um saco com sementes de cevada. Ao amanhecer, o santo descobriu que se encontrava sozinho na casa e a noite anterior foi como apenas um sonho ébrio para ele.
Sir Drinksalot embarcou rumo a sua amada ilha. No caminho enfrentou piratas e infiéis, os quais conseguiu vencer ao entorpece-los com o que havia restado do sagrado vinho de São Dionísio, que miraculosamente jorrou de seu cantil como se nunca tivesse fim. Embriagados, os piratas e os infiéis se tornaram amigos de Drinksalot e juntos o protegeram até as terras de França. Lá, novamente encontrou-se com o estranho de posses e bom gosto, e um amigo dele que dizia ser um sábio três-vêzes-grande. Eles lhe explicaram que estavam negociando com os ditos cátaros e planejavam uma história muita engraçada que lhes renderia muitas risadas nos séculos vindouros. Sir Drinksalot deixou-os com seus novos amigos e rumou para o norte até chegar em sua amada Ængeland.
Estava feliz por retornar a sua terra natal e decidiu plantar a cevada que havia recebido do velho e arcano judeu. Ela cresceu rápida e logo os campos estavam cheios. Dela ele fez uma beberagem poderosa que trazia sabedoria e beleza àqueles que a bebiam, ou ao menos era o que lhes parecia. Ela permitia que transcendessem este mundo de sombras e poeira para atingir os planos superiores da Criação. Mas ainda assim algo faltava ao bravo santo. Foi quando ao atravessar as sagradas terras verdes da Hibérnia que lhe foi revelada sua tarefa, como prometido, por São Dionísio. Ao cruzar os campos de cevada que ardiam em chamas, Sir Drinksalot ouviu a poderosa voz divina de que lhe ordenou que onde houvesse a tristeza, que ele levasse a alegria; onde houvesse angústia, que ele levasse a paz; onde houvesse o sofrimento, que ele levasse o esquecimento; onde houvesse a sobriedade, que ele levasse… a alegria!
Com esses nobres ideais, Drinksalot deixou sua terra natal e o lago de sua terra natal e andou por muitos reinos e muitos o seguiram. Glória e honra se uniram a seu nome, até o dia que Sir Drinksalot travou sua última batalha, a batalha de High Pint, quando ele proferiu as sagradas palavras “Nós poucos, nós poucos felizes! Nós, bando de irmãos! Pois aquele que partilhar de sua cerveja comigo hoje será meu irmão!”. Sir Drinksalot caiu em batalha, mas seus ensinamentos se perpetuaram através de seus discípulos e através das gerações que se seguiram.
Por isto que todos aqueles que já tiveram a epifania de Dionísio ou simplesmente ouviram em seus sonhos as sábias palavras de Sir Drinksalot, o guardião do lúpulo, o agitador dos salões, o insuflador dos ânimos, deve em sua honra se reunir em conclave nos santuários tabérnicos e de tradição setentrional, durante o abençoado sexto dia da semana e, sob a inspiração e influência dos sagrados vapores etílicos, celebrar a memória do santo guerreiro da cevada: Sir Drinksalot (santo seja seu nome)! Pois assim disse o santo Drinksalot: “Bem aventurados os ébrios, pois deles o Senhor será guardião e o Adversário seu amigo!”
Amém.
FINIT.









