“Podia ser só mais um lindo entardecer em São Miguel…”
Matanza, “Santanico”.
Há dois dias deixei a capital do estado rumo ao interior, à uma cidade do extremo oeste. Cheguei com a neblina da manhã à estação de Paraíso. Me informei com o funcionário local que me aconselhou a ir até o centro da cidade e tentar pegar uma carona até São Miguel da Prata, ou aguardar até o dia seguinte quando uma caminhonete que faz as vezes de transporte entre as duas cidades viesse. A cidade de São Miguel fica a uns 33km de Paraíso, e os únicos meios de se chegar lá são de carro ou a cavalo.
Tenho em mãos um pequeno diário que encontrei há seis meses atrás, em meio as coisas de meu finado avô. Nunca soube muita coisa a respeito de sua juventude. Diferente de outros avôs, o meu sempre foi muito soturno. Nunca contou histórias de quando era mais jovem para mim e meus irmãos. Nunca foi de conversar muito conosco também. Apesar disso, eu ainda era o neto com que mais ele parecia simpatizar, ou menos se irritava.
Quando começou a adoecer, numa certa noite, ele pediu que me chamasse e me disse que sabia que não iria durar muito. Pediu para que quando morresse, eu deveria ir até ao seu escritório e procurar por uma Bíblia de capa vermelha, no canto da prateleira mais alta da estante. Disse que ao abrí-la, descobriria que ela teria um fundo falso e lá teria um diário. Um diário de quando era moço e veio embora de São Miguel da Prata para a capital.
Quando ele faleceu, aguardei o fim de seus funeral e imediatamente voltei para sua casa em busca da Bíblia. Ela estava onde dissera. Ao abrí-la vi que meu avô havia recortado as páginas dela, criando um espaço onde se encaixava um pequeno caderno de capa preta de aparência velha e surrada. O abri com cuidado e reconheci as iniciais de meu avô na primeira página: “J. V. M.” O primeiro registro do diário datava de 20 de agosto de 18… e continha apenas uma frase: “Não há nada que os detenha quando a noite cai!”
Peguei uma carona em um caminhão de mantimentos que iria passar por São Miguel da Prata. O motorista era um senhor gordo e espirituoso. Durante todo o percurso não parou de conversar e nem de contar piadas infames. Entretanto, quando lhe perguntei sobre mais detalhes a respeito de São Miguel, ele disse apenas que era um lugar humilde e esquecido por Deus, e não tocou mais no assunto. Eu também achei de bom tom não insistir.
Chegamos a São Miguel por volta das três da tarde. Ao menos era o que dizia meu relógio. Um sol mortiço brilhava no horizonte, dando a impressão que nunca havia se movido. Na verdade, era como se toda a cidade estivesse alheia a noção de tempo. Era como se estivesse congelada numa fotografia. Durante o caminho, vi apenas um único morador, um senhor idoso numa cadeira de balanço na varanda de sua casa. Ele ficou nos observando, com olhar fixo, até onde pode sem se levantar.
O motorista me deixou em frente de uma velha pousada da cidade. Assim que adentrei no local, o caminhão arrancou, sem que eu tivesse tempo de agradecer. A pousada era pequena, muito simples, e até com uma aparência de abandonada. Parecia que ninguém passara por lá há muitos anos. Logo no hall de entrada havia uma poltrona de estampa florida com manchas cor de ferrugem e sujeira. Ao seu lado, uma pequena mesa de madeira escura, estilo georgiano; e sobre ela um abajur, que um dia deve ter sido bege, mas que agora era cinza, tamanha a poeira sobre ele. O balcão da recepção era de madeira e estava necessitando de uma nova mão de verniz. Atrás dele, na parede, um grande espelho que refletia toda a sala, dando a impressão que a sala era duas vezes maior do que realmente era. O espelho talvez fosse a única coisa que parecia ter sido limpo nos últimos tempos.
Não havia ninguém lá. Estava sozinho e sem saber o que fazer. Girei em meus calcanhares, procurando por algo que não estava lá. Procurei no balcão por alguma campainha, mas não havia nada além de uma antiga escarradeira de cobre e o livro de hóspedes. Bati palmas e gritei por alguém.
Silêncio.
Na terceira vez que chamei por alguém foi que ouvi, ao longe, uma resposta. De uma escada lateral, que ainda não havia percebido, desceu uma velha senhora, de cabelos totalmente grisalhos e fumando um pequeno cachimbo de barro. Ela era baixa, tendo de erguer bem a cabeça para olhar em meu rosto. Mantinha um dos olhos constantemente fechado, protegendo-o da fumaça do cachimbo.
“Sim?” – disse ela com uma voz rouca e grave. Parecia irritada, ao ponto de me deixar constrangido de estar ali. Talvez estivesse ocupada em outra tarefa e eu a tivesse interrompido. Nunca soube se era verdade.
“Eu… eu gostaria de um quarto, por favor.” – lhe respondi, apreensivo.
A velha ficou me encarando por alguns segundos, até que finalmente fosse para trás do balcão. Subiu em um banco para poder alcançar o livro de hóspedes. O abriu de forma violenta, fazendo a capa dele bater com força sobre a madeira do balcão e erguendo uma leve nuvem de poeira. Enquanto folheava o livro, soltava grande baforadas de fumaça sobre suas páginas. Ao encontrar a página que procurava, arrumou o cachimbo, passando-o para o outro canto da boca, e me empurrou o livro.
“Assine aqui!” – sua voz soava como uma ordem.
Assim que assinei ela me entregou a chave do quarto, me informando que era a última porta no fim do corredor, subindo a escada, à esquerda. Agredeci e me direcionei rapidamente para a escada. Entretanto, antes de subir, ainda pude ver que ela continuava a me encarar de forma hostil, como a face de um bulldog, principalmente depois que ela leu o meu nome no livro de hóspedes. Acelerei o passo e logo estava frente a porta do quarto.
CONTINUA…









