“If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite. For man has closed himself up, till he sees all things through narrow chinks of his cavern.”
William Blake, “The Marriage of Heaven and Hell”.
Ao consultar o verbete “Childless, William” na Enciclopédia Britânica, talvez vocês não encontrem ninguém. Porém, certa vez, durante a ociosidade surgida no meio daquele ano, devido ao período de férias na faculdade, comecei a folhear alguns livros antigos que tinha em casa, e sem nenhuma razão especial me veio o nome de Childless à mente. O nome chegou sorrateiramente, furtivo como um felino, um sussurro ao ouvido, uma lembrança perdida que voltava à tona na consciência. Movido por tal impulso, fui até a enciclopédia e ao consultá-la não havia nada a respeito dele. Porém, algumas semanas depois, consultando um manual de literatura inglesa que havia recém adquirido, mais precisamente o Cambridge Companion of English Literature, constatei que no índice remissivo existia o nome de Childless: “Childless, W., 235″. Fui até a página em questão e com a ponta do dedo a percorri rapidamente até que encontrei o nome na antepenúltima linha.
Aquele capítulo específico tratava dos principais escritores da primeira metade do século XIX, com um enfoque especial sobre William Blake. A referência a Childless dizia apenas que ele teria sido contemporâneo e amigo do velho Blake em seus últimos anos de trabalho, e sobre sua influência para a composição da mais famosa obra do jovem escritor Childless. A tal obra seria um poema obscuro e de cunho um tanto místico intitulado, “The Nephilim Under the Veil”. Para falar a verdade, não me recordo se era exatamente isso que o artigo dizia. Há algum tempo que minha memória não se tornou confiável e devido aos últimos fatos, passei a duvidar de muito daquilo que ainda me lembro. Certeza mesmo era de que Childless teria sido contemporâneo de William Blake, que talvez tenham se encontrado várias vezes até a morte do último, e que também teriam contribuído um para o trabalho do outro. Durante sua obscura carreira, Childless também teria conhecido Coleridge, Wordsworth e Lord Byron, assim que este retornou da Grécia. Consultei outros manuais de literatura inglesa mais antigos; visitei quase todas as livrarias da cidade, sebos e a biblioteca de três faculdades, mas em nenhum deles encontrei qualquer outro tipo de menção a Childless ou a tal poema. Por fim, desisti.
Durante um ano o nome de Childless não me incomodou mais, era como se eu tivesse apenas sonhado com seu nome e nada mais do que isso. Talvez fosse isso mesmo que tivesse acontecido. Ou era isso que eu gostaria que tivesse acontecido. Entretanto, um ano decorrido, fui ao cinema e na volta para casa parei na frente de uma livraria no caminho, e lá eu vi aquele nome novamente. Era um livro grosso de capa dura, com mais de quinhentas páginas. A capa exibia a imagem de um homem de meia idade de perfil, ruivo e com uma barba farta, leonina. Sua testa estava levemente enrugada, suas sobrancelhas quase se unindo, como alguém compenetrado ou que tenta enxergar alguma coisa que está muito longe. Acima dele, o título do livro em letras douradas: “The collected proses and poems of William Childless”. Mais tarde descobri que o homem da capa não era Childless, pois não existem fotos ou qualquer outro tipo de imagem dele que tenha sobrevivido. É certo que os editores decidiram publicar a foto de qualquer um que tivesse cara de escritor vitoriano, só para chamar a atenção do leitor, como no meu caso. Uma ansiedade súbita tomou conta de mim. Estava tão excitado com a existência de tal livro ali na vitrine, que esqueci o cigarro ainda não aceso pendurado no canto da boca enquanto entrava correndo na livraria. Só o percebi quando perguntei à vendedora o preço do livro e senti algo se agitando sob meu lábio superior enquanto falava.
Entrei e fui direto até o livro, como um animal faminto com medo que sua presa fuja. Foi bom que tivesse feito isso, pois aquele era o único exemplar que eles tinham disponível. Alguns minutos depois, estava andando devagar pela calçada, rente aos prédios e desviando das pessoas, enquanto seguia em meu caminho folheando o livro compulsivamente. Corri rapidamente os olhos pelo índice e lá estava o supostamente famoso poema “The Nephilim Under the Veil “. Comecei a ler imediatamente enquanto caminhava. Quando cheguei em casa, já o tinha lido três vezes do começo ao fim. Já não faz muito tempo quando eu podia citar cada um de seus versos de cor, mas hoje só o que me restou na memória foi o título e o argumento de seu conteúdo. Ainda me recordo de um ou outro trecho do original, mas a maior parte dele já esqueci. É um poema estranho, mesmo para escritores românticos oitocentistas. É o tipo de texto que William Blake escreveria com Goethe se John Milton o ditasse para eles numa casa de ópio.
Childless dividiu seu poema em três partes intituladas como Gan Eden, Babel e Yerushalayim, tendo cada uma delas exatamente mil novecentos e oitenta e três versos, por vezes aliterativos, por vezes livres; o que sempre me passou a imagem de um poeta não muito experiente em seu ofício, ou um que apenas queria provocar o leitor mais regrado e apegado à métrica tradicional ou simplesmente um escritor excêntrico. A primeira parte começa contando sobre como Deus criou o mundo os anjos e os homens e logo trata da rebelião de Lúcifer e seus seguidores insurretos. Mas diferente de outras obras que tratam do mesmo assunto, no poema de Childless, os anjos rebelados fogem para a terra onde fundam as primeiras cidades e passam aos homens o seu conhecimento de diversos tipos de ofícios, de artes mágicas e da natureza do universo. Finalmente, como está no trecho do livro do Gênesis (6: 1 – 4), copulam com as filhas dos homens e delas nascem grandes seres. O enlace dos corpos, as sensações, o êxtase… Esta parte em particular do poema é descrita com tantos detalhes que beira o pornográfico. Os filhos desta união não são gigantes, como algumas especulações de biblístas costumam dizer, mas seres de grande poder os quais Childless identifica como sendo os nephilim. Desta forma, eles criam um tipo de novo Paraíso sobre a Terra. A partir de então, estes seres passam a ser vistos com grande temor pelos demais povos da Terra e com ódio por Javé, pois os considera como uma afronta a sua autoridade. Algo que lembra muito o embate dos Titãs contra os deuses da mitologia grega. O poema então narra uma grande batalha entre os nephilim e os seus pais contra as hostes celestiais javéticas, que se encerra com o advento do Dilúvio e com a vitória do exército divino. É curiosa a idéia de Childless neste ponto do poema, porque após a batalha celestial não ocorre o aprisionamento dos anjos rebeldes no Inferno, mas sim a sua total aniquilação. Ou seja, dentro de seu poema, não existe a figura de Lúcifer transformado no Diabo e muito menos o Inferno. Por sua vez, os poucos nephilim sobreviventes decidem se esconder e preparar sua vingança. Para tanto, eles ocultam suas naturezas semi-divinas e passam a viver escondidos entre as pessoas, como homens comuns. Com sua vitória, Javé passa a governar o mundo, sem a influência dos anjos rebelados e seus filhos, por meio de um “véu místico” (termo utilizado por Childless) que oculta a verdadeira natureza do universo. O poema passa a idéia de que após a batalha celestial, o mundo, que antes havia sido um paraíso, uma utopia, o Éden propriamente dito, é transformado no Inferno, uma prisão mística para a humanidade que partilhou dos ensinamentos dos anjos rebeldes e dos nephilim. Nesta sua releitura, Adão aparece como um nephilim, sábio e conhecedor da língua dos animais, das plantas e das forças da natureza, e não como o primeiro homem. Não há nenhuma menção a frutos proibidos e serpentes. Ao invés disso, Adão conversa com seu pai angelical o qual lhe apresenta sua consorte, Eva. Childless utiliza o nome Eva não como o nome de uma mulher específica ou a esposa de Adão, mas como um termo geral para todas as mulheres também fruto da união entre os anjos e as “filhas dos homens”. Ao mesmo tempo, o poema também dá a entender que Adão era um dos líderes dos nephilim e que todos foram aliados da humanidade durante a guerra. Ou seja, o autor deixa claro que a linhagem dos nephilim e de Adão e Eva não é exatamente a mesma que a dá humanidade. Uma idéia no mínimo blasfema para um escritor do século XIX.
A segunda parte do poema começa descrevendo como os sobreviventes escaparam da ira divina das águas do Dilúvio, mas explicando apenas que “os filhos dos filhos de Deus se refugiaram em regiões ermas e altas do oeste, onde ficaram livres das águas malignas de Javé”. Como já disse, não recordo claramente das palavras originais em inglês. Este trecho sempre me intrigou, pois, assim como em outras partes de sua obra, Childless sempre parece fazer questão de utilizar os termos “Deus” e “Javé” como sendo duas personagens diferentes e opostas. Quando ele fala sobre aquele que criou o universo e tudo o que existe nele, inclusive os homens e os anjos, ele se refere a Deus. Recordo-me dele até mesmo utilizar o termo “the Everlasting” algumas vezes ao se referir ao Criador. Mas quando ele fala sobre aquele contra quem os anjos se rebelaram, que criou o Dilúvio, que perseguiu os nephilim e submeteu os homens a sua adoração, ele emprega o nome de Javé. William Childless era profundo conhecedor das idéias do cristianismo gnóstico, que tratam justamente deste tipo de dualismo divino e demais tradições esotéricas. Após sua salvação, os sobreviventes então ocultam suas naturezas e passam a viver entre os homens através dos séculos. A partir daí, o poema narra uma série de episódios marcantes ao longo da história da humanidade de forma anacrônica, sempre girando em torno de certas pessoas que teriam de alguma forma ligação com os nephilim. A escrita de Childless é estranha porque não fica claro em nenhum momento se estas pessoas seriam os nephilim antidiluvianos que ainda estariam vivos ou se seriam pessoas que estariam sob influência deles; em um dos poucos trechos que ainda me lembro, ele chega a dizer “the oldborns shall live again in perpetual births of new aeons on the minds of mankind”, o que sempre me fez pensar que Childless quisesse dizer que os nephilim teriam a capacidade de renascer a cada nova geração entre os homens. O fato é que ao ler o poema, a impressão que temos é que as três coisas ocorrem simultaneamente. Todos os grandes heróis, salvadores, profetas e pensadores citados (e aqueles criados) por Childless são os que em tempos de obscurantismo surgem para trazer algo que mudaria o mundo, para subverter a realidade estabelecida por Javé, para rasgar o “véu” que Ele criou. Em geral estas pessoas acabam sempre encontrando um final trágico. Alguns conseguem cumprir com sua missão, outros são destruídos antes. O final desta segunda parte é o momento menos místico e fantástico do poema, mas não necessariamente mais realista. Ele termina de forma abrupta com a crucificação de Jesus e a fuga de Judas para o deserto. Na versão de Childless, não há nenhum traidor que trocou seu mestre por algumas moedas. Ao contrário, Jesus simplesmente pede a Judas para ir para o deserto encontrar-se com o “Pai”, enquanto os demais apóstolos são retratados como seres temerosos e confusos. Não é narrada a prisão nem a paixão de Cristo. Ele se despede de Judas em segredo, e nos versos seguintes ele já está crucificado. O fato mais perturbador deste trecho é o de que Jesus não diz nada parecido com aquilo que o relato dos evangelhos fala. Sem palavras de consolo ou pedidos de perdão a ninguém, antes de morrer ele simplesmente ergue os olhos ao céu e começa a rir, de forma cada vez mais intensa até culminar numa gargalhada e finalmente morre.
A terceira e última parte é onde a obra de William Childless atinge o seu clímax e também onde se torna ainda mais insólita e confusa que o restante do poema. Nesta parte do poema, o texto toma proporções apocalípticas. Tem início uma grande rebelião liderada pelos nephilim e seus aliados contra Javé. O poema diz que após tanto tempo de reclusão e vidas ocultas, “the hidden ones has awoke in the minds of mortal souls, to the celestial shores”. Eles se reúnem num local que não fica muito claro onde é pela leitura do texto. Childless diz: “to escape from the Warder Eye, the sons and daughters of the Eternal had gone beyond the Veil, gathering under the shades of Nod”, e de lá eles iniciam finalmente sua vingança. Segundo o que me lembro, o poema diz que a batalha travada entre os nephilim e os agentes de Javé acaba consumindo a humanidade num novo dilúvio, mas diferente do primeiro que inundou o mundo, Childless faz com que dessa vez os responsáveis pelo dilúvio sejam os nephilim e ao invés de água o mundo é tomado por fogo. Este dilúvio de fogo não é algo real, não é exatamente um incêndio, pelo o que as palavras de Childless indicam, mas um fogo místico. Ele cita este novo dilúvio como sendo aquele que consome os ignorantes, os cegos e os frágeis demais para contemplar aquilo que se esconde por trás do véu que encobre a “verdadeira Jerusalém”, a idéia de uma realidade oculta. A “Jerusalém Celeste” não está por vir, mas já está ao nosso redor, só que não conseguimos enchergá-la devido ao “véu”. O poema termina com a conclusão da vingança dos nephilim, que finalmente derrotam Javé e a queda de seu Reino (“the Kingdom”, com “K” maiúsculo mesmo) através deste “fogo libertador”, como Childless se refere ao novo dilúvio. Com a destruição do Reino, é revelada para todos os panoramas desconcertantes dos domínios do Eterno, de Deus, e o retorno de antigas potestades, entidades míticas do passado da humanidade, que seriam os verdadeiros responsáveis pela morte de Javé. Childless concluí o poema dizendo: “The old marks are vanished, the ilusion is broken, the frontiers are lost, the mortals no more dead, the perception is wide and deep, the mind is free”.
Assim que entrei em casa, tranquei a porta, tirei o telefone do gancho, deitei na cama e comecei a ler o livro avidamente até terminá-lo. Além do poema que me levou a compra-lo, o livro também continha um outro poema intitulado “The Carrion Wings of Midnight” (que pelo o que descobri, juntamente com “Barnaby Rudge” de Dickens, teriam inspirado Poe a escrever o seu “O Corvo”), além de pequenos contos de qualidade questionável inspirados no folclore escocês e do norte da Inglaterra, alguns ensaios a respeito da literatura européia do final do século XVIII, um breve estudo de casos de licantropia em Londres da década de 1820, um pequeno ensaio sobre o magnetismo dos corpos vivos, geomancia e algumas anotações da viagem que teria feito quando foi ao Egito na década de 1840. Há um breve trecho que me chamou a atenção e me lembrou seu poema “Under the Veil…”. Childless diz que enquanto visitava algumas ruínas em Luxor teve um encontro inesperado: “Na antiga al-Uqsur encontrei-me com um de meus irmãos há muito recluso. Tomamos café e em meio a nuvens de fumos adocicados me disse que estava preparado para realizar a sua passagem para além dos caminhos do Reino. Naquela noite ele me mostrou o que fazer e por fim eu o vi partir”. Childless sempre circulou por grupos esotéricos e sociedades secretas. Provavelmente este tal irmão que encontrou no Egito fosse também um destes ocultistas vitorianos. Tempos depois descobri que o nome de Childless é muito mais conhecido no submundo esotérico do que literário. Entre alguns fatos inusitados, o famoso Aleister Crowley teria se encontrado com ele quando tinha por volta de 19 anos, pouco tempo antes de ir para a Universidade de Cambridge. Crowley não deixa muito claro quando exatamente e onde isso aconteceu, mas que teria passado toda uma tarde e uma noite conversando com o senhor W.C. (como Crowley o chama em seus diários).
Já era por volta das seis da manhã quando terminei de ler o livro. Estava cansado, mas não necessariamente com sono. De qualquer maneira, meus olhos ardiam como se estivessem cheios de areia e sentia muito calor e dor de cabeça. Há quase uma semana estava gripado com eventuais estados febris, e aquele era um desses momentos. Definitivamente eu precisava descansar. Pelo menos os olhos. Era estranho, pois não me lembro se tinha de ir trabalhar naquele dia, o que preocuparia a maioria das pessoas que tem um emprego e passam a noite em claro. Para falar a verdade, hoje em dia nem mesmo me recordo se eu tinha um trabalho ao qual devesse ir. Isso já não importa mais. De qualquer forma, tendo um emprego ou não, precisava descansar. E foi o que eu fiz. Tive sonhos estranhos com lugares e pessoas que nunca tinha visto antes. Influenciado pela leitura do poema, sonhei com antigos deuses mortos lutando em terras distantes. Vi hostes angelicais guerreando sob um céu púrpura e sendo vigiados por um grande olho aterrorizante e reluzente, cercado por símbolos brilhantes. Em meio a tudo isso eu vi William Childless. Diferente da imagem da capa do livro (que logicamente não era ele), ele era magro, esguio, de estatura mediana. Seu rosto tinha uma expressão calma e esboçava um leve sorriso. Ele não se apresentou nem disse nada, eu apenas sabia que era ele. Estava vestido completamente de negro, exatamente o estereótipo de um cavalheiro inglês vitoriano. No sonho ele caminhou até mim, balançando sua bengala de forma despreocupada. Parecia bem mais jovem do que eu o imaginava, talvez por volta dos trinta anos. Sempre pensava nele como um velho barbudo e gordo, usando óculos. Uma versão mais rechonchuda e desleixada de sir Arthur Conan Doyle. Ele se aproximou, tirou a cartola e sorriu novamente. Fiquei parado como uma estátua. Este era um daqueles sonhos que nós não temos controle sobre nossas ações. Apesar de nos vermos fazendo e falando coisas, não conseguimos interferir, apenas assistimos como meros espectadores. Childless então chegou junto ao meu ouvido e disse alguma coisa em voz baixa. Não me lembro o que ele disse. Mas, por alguma razão, fui tomado por uma grande ansiedade. O restante do sonho foi muito confuso e não me recordo direito. Por fim acordei.
Estava muito mais cansado do que imaginava, pois acabei dormindo até o final da tarde. A febre já tinha baixado. Levantei, tomei um banho e fui até a casa de um casal de amigos que havia me convidado para jantar. Era um jantar em homenagem a alguma coisa a qual eu não tinha certeza. Aniversário de namoro, noivado, casamento ou algo do gênero. Não tinha prestado atenção quando eles me convidaram e não tive coragem de lhes perguntar, pois seria meio embaraçoso. Esperava que em algum momento durante o jantar eles fossem fazer um brinde, o que esclareceria o motivo da ocasião, mas não aconteceu. De fato houve um brinde, mas foi simples, como qualquer outro que fazemos dizendo quando temos alguns amigos e um copo na mão. Talvez eu apenas tivesse me enganado com o motivo do jantar. Não seria tão improvável que eu tivesse imaginado ou lido algo sobre jantares e casamentos no livro de Childless e acreditado que tivesse sido meus amigos que disseram isso para mim. Como disse, minha memória naqueles tempos estava cada vez mais definhando e por vezes se entrelaçando com outras lembranças.
Após o jantar, permanecemos à mesa conversando sobre diversos assuntos. Assim que foi possível, introduzi o nome de William Childless na conversa. Meus amigos me olhavam curiosos, pois me disseram nunca terem ouvido falar dele nem sobre nenhuma de suas obras. Empolgado com essa declaração, passei as horas seguintes lhes contando sobre os poemas, contos e crônicas que tinha lido na noite anterior. Lembrando disso agora, acho que eles ficaram um pouco entediados comigo naquela noite. Me recordo de estar falando sem parar e eles me olhando com certo olhar de sonolência. Voltei para casa, tomei mais analgésicos, e deitei na cama. Logo estava dormindo e mais um vez sonhei com lugares e pessoas desconhecidas em meio a uma história muito confusa para conseguir lembrar em detalhes no dia seguinte.
Alguns dias depois, descobri um livro publicado no ano anterior pela universidade de Oxford que tratava justamente sobre o estudo da biografia literária de Childless. Comprei-o imediatamente e em dois dias já tinha terminado. Por ser da editora de uma universidade conceituada, acreditava ser um bom trabalho. Mas não foi o que me pareceu. Aquela talvez fosse uma das biografias mais não biográficas que já tenha lido. O autor do estudo restringia suas análises a partir do ano de 1809, quando Childless desembarcou na Inglaterra vindo dos Estados Unidos. Qualquer coisa anterior a esse ano foi ignorado. Os relatos de seus trabalhos eram áridos, assim como os detalhes de sua vida pessoal, sendo a maioria baseados em deduções, por parte do biografo, nem sempre verossímeis. Mas felizmente esta não foi a única biografia de Childless a ser publicada naquele ano. Outras duas biografias sobre ele foram lançadas, além da reedição de uma de suas obras há muito tempo esquecida: The Philosophical History of Magic and Witchcraft, em dois volumes, sendo que última edição tinha sido publicada em 1877. Rapidamente a obra se tornou um best-seller entre grupos new-age, esotéricos e curiosos pelo assunto. Logicamente comprei todos esses livros e cada vez mais me via envolvido pela figura de Childless. Aquilo definitivamente já havia se tornado uma obsessão, tinha consciência disso, mas não conseguia parar.
A partir destas publicações William Childless tinha se tornado muito popular. Para todo lado que eu olhava tinha alguma coisa, algum texto ou trabalho sobre ele. Comecei a me questionar como nunca ninguém tinha percebido tudo isto antes? Era como se ele tivesse retornado dos mortos. Cada dia que se passava eu ia me tornando cada vez mais obcecado por Childless. Qualquer coisa que publicavam sobre ele eu comprava.
Na mesma proporção que crescia meu interesse por William Childless, minhas crises de dor de cabeça também aumentavam. Os momentos febris foram ficando cada vez mais intensos e analgésicos e outros medicamentos já não surtiam tanto efeito quanto antes. Já não ia mais trabalhar, o que provavelmente me custou o emprego (seja lá qual era) e raramente saía de casa. De vez em quando algum amigo vinha me visitar e costumavam me trazer algo para comer. O que era bom, pois assim tinha mais tempo para estudar. Eles reclamavam, dizendo que eu devia procurar um médico, que devia sair de casa, passear. Mas os ignorava e evitava qualquer coisa que me desviasse de minhas leituras sobre Childless. As coisas pioraram quando começaram os surtos de amnésia e sonambulismo.
Numa manhã acordei na sala, todo vestido (calça jeans, camisa, casaco…) e com as mãos sujas com cinzas. Fiquei confuso, pois tinha certeza que na noite anterior tinha ido para cama vestido de pijamas. A barra da minha calça estava úmida. Olhei pela janela e vi que estava garoando. Lavei as mãos, me troquei e fui tentar dormir de novo. Só no dia seguinte fui notar o estranho símbolo que estava desenhado com cinzas no espelho do banheiro. Parecia com duas serpentes entrelaçadas dentro de um círculo, rodeado de outros símbolos ou letras menores. Se fui eu que fiz aquilo, não me recordava e nem sabia o que significava. Minha cabeça estava explodindo e a febre tinha voltado. Casos semelhantes aconteceram nos dias seguintes.
Numa das vezes, era ainda bem cedo quando tocou a campainha e ao abrir a porta o porteiro do prédio me estendeu um pacote em papel pardo. Não entendia o que ele queria e peguei o pacote. Ele me disse que eu havia deixado cair quando entrei no prédio. Agradeci e fechei a porta. Ao abrir o pacote, me surpreendi ao ver que se tratavam de velas pretas e brancas. Claramente havia saído de casa, mas não me lembrava o que tinha feito nem aonde tinha ido. Nem mesmo me lembrava o porque tinha comprado as velas. Quando fui à cozinha, também encontrei outras coisas que não lembrava de ter comprado, como ervas, incenso, carvão e até mesmo uma bacia de cobre. Aquilo me deixou muito perturbado. Acreditei que estes surtos de amnésia e sonambulismo eram fruto de meu estado debilitado. Por mais medicamentos que eu tomava, a febre e as dores de cabeça sempre voltavam. Fui ao médico, mas nada de errado foi detectado a não ser o diagnóstico de um princípio de anemia e possivelmente uma gripe oportunista. Receitou-me uma dieta rica em ferro, algumas vitaminas, analgésicos e um remédio para me ajudar a dormir.
Certo dia saiu a notícia nos jornais de que teriam encontrado os manuscritos de um livro nunca publicado por Childless. Uma senhora idosa, moradora de uma casa de repouso de Boston, nos Estados Unidos, teria descoberto sob o assoalho de seu quarto um compartimento contendo uma caixa de madeira. Dentro foram achados um par de óculos, um par de luvas brancas, instrumentos de desenho como compasso, réguas, lápis e esquadro, uma pequena máquina de escrever e algumas folhas em parte datilografadas e em parte manuscritas assinadas por William Childless. Em menos de três meses o livro já havia sido publicado sob título The Dreaming Gods, e antes do final do ano já o tinham traduzido para 6 idiomas. Assim que foi publicado eu o comprei e dediquei dias lendo-o e estudando-o. O livro tratava-se de um romance de temática hermética, onde um cavaleiro ruma para Jerusalém durante as cruzadas e é capturado por uma seita mística muçulmana, permanecendo preso por anos. Durante seu cativeiro, ele acaba se tornando amigo do líder da seita e inicia um longo aprendizado de tradições filosóficas e metafísicas. Ao fim de nove anos ele é libertado e começa a segunda parte do romance, onde o cavaleiro se encontra com diversas personagens estranhas e misteriosas em situações por vezes insólitas durante seu caminho de volta para sua terra-natal. Muitos críticos literários compararam o livro de Childless com o Alice no País das Maravilhas de Carroll. Houve até um jornalista que levantou a hipótese de que talvez os dois tivessem se conhecido, não nunca foi possível comprovar o fato. No final do livro, após diversas experiências místicas, ele volta para casa, onde adoece e morre. Entretanto, pouco antes de morrer, descobre que na realidade ele nunca deixou sua cela no esconderijo da seita islâmica. Este recém descoberto romance de William Childless logo se tornou um sucesso, rendendo resenhas, reportagens, documentários, um projeto para uma versão para o cinema e dezenas de estudos acadêmicos sobre a simbologia e a interpretação das personagens e sobre as supostas mensagens secretas contidas nas entrelinhas da narrativa.
Mantive-me recluso por três dias lendo, relendo e estudando este novo livro de Childless. No quarto dia tive um sonho perturbador. Me via andando por ruas escuras, de pedra. O ar estava úmido e fétido, ao longe podia ouvir o som das ondas do mar. Não controlava meus atos, ainda que tentasse. Vi meus pés me levando até um tipo de estabelecimento, um bar ou restaurante cheio de pessoas. Ao entrar, um homem corpulento de grande bigode e face brilhante e gordurosa sorriu ao me ver e falou alguma coisa sobre “a mesa de sempre”, e me conduziu até um canto onde se encontrava uma mesa e duas cadeiras. Uma delas já estava ocupada por um homem que se sentava de costas para mim. Involuntariamente agradeci o homem de bigode, que se retirou. Dei a volta na mesa e sentei-me na outra cadeira, de frente para o outro homem. Fui tomado de horror ao ver que o homem sentado a minha frente era eu mesmo, avidamente devorando uma coxa de frango assado e usando roupas antigas do século XIX. Ele (que se parecia comigo) tomou um gole de vinho do copo a sua frente e me perguntou algo do qual não me lembro. Enfiou a mão dentro de seu casaco e retirou um envelope. Entregou-me e fez mais um comentário ininteligível. Curioso, queria abrir o envelope, mas meu corpo não me obedecia. Me vi guardando o envelope em meu bolso da calça e me servir do vinho disponível à mesa. Comia e conversava descontraído com o homem que se parecia comigo, ainda que não entendesse claramente o que conversávamos. O homem e eu falávamos rápido, creio eu, em inglês. O meu duplo me explicava alguma coisa que eu deveria fazer o quanto antes, mas por mais que eu tentasse prestar atenção, não entendia o que era dito. De repente, minha atenção foi desviada para outra coisa. Olhei para cima e notei que o teto havia desaparecido. Parecia que ninguém mais além de mim tinha percebido o fato. Mais tarde percebi que o teto não havia desaparecido, mas sim se tornado transparente. Podia observar as estrelas brilhando num céu límpido. De repente, houve um clarão e uma intensa luz esverdeada me cegou. Como disse, parecia ser o único a perceber e a se incomodar com tudo aquilo. Quando minha visão se acostumou com a claridade, olhei novamente para cima e horrorizado vi um olho gigantesco e fantasmagórico me observando. Acordei com o barulho de copo se quebrando no chão.
Despertei assustado e desorientado. Estava no meio da sala de meu apartamento. Procurei e achei os pedaços de vidro do que um dia foi uma taça de vinho no chão, junto ao meu pé. Me ergui rapidamente e com um pano úmido retirei os pedaços da taça e limpei o vinho, que se espalhou entre o chão e o tapete de minha sala. Achei estranho a presença do vinho, pois não tenho vinhos em casa e nem mesmo gosto muito de beber vinho e nem mesmo sabia que tinha taças como aquela. Mas o que mais me intrigou foi o que vi sobre a mesa. Ao que parecia, eu estava bebendo vinho enquanto lia sentado à mesa e acabei adormecendo. Sobre a mesa encontrei livros que não lembro de ter comprado, livros sobre física quântica e magia. Havia também desenhos de círculos mágicos, utilizados por antigos místicos para invocar entidades sobrenaturais e também uma tábua de ouija que eu tinha desde a adolescência. Não tinha a menor idéia de como todos aqueles objetos foram parar lá na mesa e o que eu estava fazendo com eles. O cheiro forte de incenso pairava no ar e velas derretidas se espalhavam nos quatro cantos da mesa. Assim que comecei a recolher os livros no meio de toda aquela bagunça, de dentro de um deles caiu um envelope.
O livro de onde caiu o envelope era a 6ª edição do Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy, de 1863. Na primeira página havia um carimbo da loja onde foi comprado, um sebo especializado em livros raros. Conhecia a loja, mas não lembrava de ter ido até lá ou comprado o livro. Por sinal, não fazia a menor idéia de como tinha pagado por um livro raro e caro como aquele. Além do carimbo, na primeira página também havia três iniciais e uma data manuscrita: “W. M. C. – 05/20/1889”. O envelope era exatamente igual ao que eu tinha recebido no sonho. Temeroso, abri o envelope devagar. Dentro se encontravam duas cartas escritas em inglês e à mão. As duas folhas de papel estavam amareladas pelo tempo e quebradiças. Desdobrei-as com cuidado e comecei a ler.
A primeira carta, a mais velha, datava do dia 30 de outubro de 1894. Se parecia mais com uma carta de despedida, quase uma nota suicida ou um breve testamento feito de última hora. Seu autor declara que é chegada a hora de partir para começar mais uma nova jornada pelas estradas secretas do Reino. Especifica o que deve ser feito de seus bens e para quem deverão ser entregue e vendidos. Há uma menção rápida de agradecimento sobre um amigo de “al-Uqsur”. A carta foi escrita para uma tal Catharine O’Dell, e é assinada por William Magnus Childless. Não havia dúvidas de que tinha em mãos uma carta legítima do próprio William Childless. Quase não podia me conter devido a surpresa e a emoção de ter em mãos uma carta escrita de próprio punho pelo homem que por tanto tempo estava pesquisando e estudando. Segundo pude checar em suas biografias, Catherine O’Dell era sua empregada e trabalhou para ele em seus últimos anos de vida. Apesar de não se ter certeza quando ele morreu e onde foi sepultado, acredita-se que Childless teria morrido por volta de 1894-1895 nos arredores de York, no norte inglês. Catherine O’Dell teria ficado com a casa e tudo que existia nela após a morte do patrão. Seguindo as ordens da carta, ela vendeu tudo e com dinheiro voltou para a casa de sua família no interior da Irlanda, em meados de 1905. Boatos dizem que ela não permaneceu muito tempo lá. Ela teria se envolvido com um homem casado e os moradores a acusaram de ser uma bruxa, devido a certos incidentes que teriam ocorrido na região, mas os quais não consegui descobrir o que seriam. Só se sabe que mudou-se rapidamente para Dublin, onde viveu confortavelmente com o restante do dinheiro da herança de Childless até 1940, quando faleceu. Dizem que Childless tinha um tesouro escondido, o que teria rendido uma vida tranqüila para a empregada e despertado a cobiça de parentes e vizinhos.
A segunda carta era muito parecida com a primeira e a caligrafia era quase idêntica. O que me pareceu muito estranho. Esta segunda carta datava de 28 de novembro de 1947 e, para o total horror de minha alma, era direcionada para mim! A carta dizia que eu deveria seguir uma série de procedimentos ritualísticos se eu realmente quisesse saber a verdade por trás do homem que atendia pelo nome de William Childless. Seu autor falava que tinha conhecimento de minha obsessão por ele e minhas dúvidas a seu respeito. Não entedia completamente, mas dizia também que foi difícil e que levou muito tempo até que ele pudesse me encontrar. Me encontrar? Como prova da legitimidade de suas palvras, a carta relatava exatamente os meus últimos três dias em detalhes e que deveria seguir as instruções descritas na carta o quanto antes. Estava perplexo e apavorado com tudo aquilo. Não sabia o que fazer.
Duvidei de minha própria sanidade. Aqueles surtos de amnésia e sonambulismo poderiam ser os responsáveis por aquela carta. Poderia muito bem ter tido um daqueles surtos, saído de casa, comprado o livro, escrito as cartas e colocado dentro do livro para que eu mesmo as encontrasse para alimentar minha própria fantasia. Quem assinava aquela carta era “A. C.” e logo abaixo, entre parênteses, “(W. M. C.)”. A caligrafia não era parecida com a minha, mas sim com a da primeira carta, como já disse, e o papel aparentava ser velho demais para te-lo comprado ou encontrado tão facilmente. Baseado nisso, eliminei a possibilidade de ter sido eu mesmo o seu autor. Ainda assim, o detalhamento de meus últimos dias e demais informações pessoais a meu respeito eram precisas demais para ser mera coincidência. Isso sem contar o fato da carta citar meu nome explicitamente.
Todos os procedimentos e os elementos que a carta citava já estavam ali em cima de minha mesa e haviam sido adquiridos ao longo dos dias e de meus surtos de sonambulismo. Velas, incensos, livros, cânticos e etc. Estava tudo lá, pronto para ser usado. Passei uma semana sob o efeito de remédios, tossindo e febril, pensando o que deveria fazer com tudo aquilo. Não comia direito, não atendia mais telefones nem a campainha e nem tomava banho. Minha mente estava voltada apenas para William Childless e a possibilidade de eu descobrir o que estava acontecendo. No final, mesmo duvidando de tudo aquilo, mesmo acreditando que se tratava de minha mente me pregando uma peça, decidi seguir as instruções da carta e fiz o ritual invocatório.
Durante a noite preparei a mesa no centro da sala com velas, incensos e um grande círculo mágico que a carta descrevia minuciosamente. No centro do círculo coloquei uma bacia de cobre cheia de água. Ao redor da mesa desenhei outro círculo, contornando-o com inscrições que suponho serem em grego e hebraico. Na carta também deixava claro que eu deveria colocar as duas mãos dentro da água da bacia e recitar um cântico específico contido em um dos livros. Comecei o rito à luz das velas, no escuro e com as janelas e cortinas fechadas, e recitei as palavras indicadas. Não sei se foi impressão de minha mente febril e impressionada por toda aquela teatralidade ritualística, mas o fato foi que me pareceu que a água da bacia estava esquentando e as sombras de minha sala começavam a aumentar e se mexer mais rápido do que o ritmo das ondulações das chamas das velas. Minha voz era trêmula, mas tentava mantê-la alta o suficiente, como dizia a carta. Ao final, fui tomado de uma sensação estranha, me senti como se fosse a única pessoa viva no mundo. Não ouvia absolutamente nada. Nem mesmo os sons da rua, típicos da região em que eu morava. A escuridão ao meu redor era profunda. Não conseguia reconhecer nada além da mesa e do que a fraca luz das velas podia iluminar. Sentia meu coração batendo forte e ouvia minha respiração ofegante. A febre tinha voltado e eu estava exausto. Aquele momento de torpor foi quebrado quando ouvi meu nome ser chamado de um canto escuro da sala bem a minha frente, do outro lado da mesa. Havia mais alguém ali além de mim. O vulto se aproximou o colocou suas mãos sobre a mesa. Se apresentou, falando em inglês com um leve sotaque britânico, dizendo ser William Childless e que estava ali para me ajudar e para ser ajudado. Disse que a noção do tempo era uma farsa, uma armadilha para a nossa mente. Percebendo minha catatonia frente tudo aquilo, continuou a falar. Disse que naquele exato momento ele estava na Sicília em 1922 e em Munique em 1942; disse que naquele momento também estava em York, em 1893, no seu escritório; e que também estava em al-Uqsur, em 1640, nas ruínas de um templo; em Boston, em 1777, em seu quarto realizando seu primeiro ritual de magia; em Damasco, em 1230; em Jerusalém, junto ao templo de Salomão; estava em Héfeso, Kiev e Constantinopla, enquanto os turcos invadiam a cidade, além de muitos outros locais dos quais eu nunca tinha ouvida falar, além daquela sala comigo. Disse que estava me procurando há muito tempo e que agora era tempo de eu despertar, pois finalmente eu voltaria para junto “deles”. Não entendi o que ele queria dizer e então ele me disse para olhar dentro da bacia. Foi então que vi aquele rosto. Ao olhar para dentro da bacia de cobre, a face refletida não era a minha, mas sim de um homem de traços retos, rosto esguio e cabelo preto, vestido com roupas escuras e mangas arregaçadas. Assustado, ergui meus olhos para frente e lá estava o vulto. Ele avançou e o rosto que vi ali, olhando para mim, era aquele que um dia achei ser o meu. Haviam outros com ele agora ali. Percebi que não estava mais em meu apartamento. Estávamos no meio de um deserto de areia cinza, sob um céu sem estrelas ou nuvens. Agora eu fazia parte deles e sabia que deveríamos continuar a reunir os demais. De repente tudo fazia sentido. Tudo era claro como sempre foi em meu inconsciente, mas por alguma razão eu não lembrava. Caminhei em meio a eles. Éramos muitos. Alguns grandes como edifícios, outros nem mesmo se pareciam humanos. Caminhamos e marchamos pela última vez rumo ao horizonte, onde um grande paredão luminoso bruxuleava como uma aurora boreal. Aquele era o véu! Os tempos do dilúvio de fogo haviam finalmente chegado.
FIM









