À memória de H. P. Lovecraft
Há três dias que as coisas se acalmaram. Ainda terei de dar maiores esclarecimentos à polícia, mas há três dias que tudo parece ter terminado. Já não sei ao certo. Na verdade, até agora, nem mesmo eu sei dizer com certeza o que acabou. Poucos acreditam em mim, e os poucos que disseram isso, tenho certeza, só o disseram para me acalmar. Mas eles não sabem o que eu vi, o que tive de fazer. Em nome de minha sobrevivência, física e mental. Em nome de Ana.
Escrevo este registro de minhas memórias como o último recurso que me resta, para que saibam tudo o que ocorreu. Tentei explicar ao policial que primeiro chegou ao prédio, após o clarão que tomou o edifico naquela noite. Percebi que ele ignorou tudo o que lhe disse. Provavelmente pensou que eu estava em choque e delirando. Antes fosse isso. Portanto, sei que não poderei dizer a verdade a ninguém. Logo, este é o único meio que tenho para revelar os acontecimentos ocorridos naquele prédio. Talvez nunca ninguém leia estas palavras. Mas ao menos é a forma que encontrei para desabafar. É claro que nunca poderei esquecer ou ignorar tudo o que passei, mas se torna menos doloroso colocar tudo no papel. É quase como se fosse uma terapia.
Acredito que, se algum dia encontrarem esse pequeno diário, não irão me levar a sério. Talvez pensem que tudo isso é fruto de meu atual suposto desequilíbrio emocional. Mas se investigarem, descobrirão que nunca apresentei nenhum tipo de comportamento estranho ou tive qualquer problema emocional ou psicológico. Muito pelo contrário. Sempre tive uma vida comum, sem grandes surpresas ou imprevistos. Nunca precisei tomar qualquer tipo de medicação mais forte do que um antitérmico ou um analgésico comum, disponível em qualquer farmácia. Também nunca usei drogas (com exceção de maconha, que fumei durante as poucas festas que fui durante a faculdade). O caso é que, quero deixar claro, que nunca utilizei nada que pudesse alterar a minha percepção ou meu estado de consciência a ponto de ter alucinações ou surtos esquizofrênicos. Principalmente naquela noite, quando fui encontrado perambulando pelos corredores do prédio da faculdade de Letras. Não foram remédios ou drogas que me deixaram balbuciante e desorientado. Foi algo sobre o qual ainda não me atrevo a falar em voz alta, e da qual as únicas outras duas pessoas que podiam confirmar o que aconteceu estão mortas. E eu sou o principal suspeito. Na verdade, sou suspeito de apenas uma morte. O outro corpo não foi encontrado. Logo, se não há corpo não há crime. Mas creio que não vai adiantar eu dizer à polícia que eles nunca acharão o corpo. Que seu trabalho é em vão, e que não adianta eles me interrogarem uma, duas, três ou cem vezes. Não vou confessar algo que não sei. Na verdade eu sei, mas não posso e não sei como explicar. O fato é que por mais que eles procurem, nunca encontrarão o corpo do professor Jonatas B. Neto. Nunca!
Prefiro omitir o exato local onde tudo aconteceu. Quero evitar que alguém que leia tudo isso que escreverei aqui, decida ir atrás dos tais lugares e das pessoas que estiveram de certa forma envolvidas. É preferível que o tempo se encarregue de varrer para baixo do tapete tudo o que aconteceu. Certas coisas devem permanecer ocultas. Escondidas da luz do dia. De forma que nunca ninguém saiba que elas existem. Pois se um dia, por descuido, elas vierem à superfície de nossa realidade, será preferível abraçar o conforto da loucura a ter de encarar a realidade do insólito.
Pois bem, creio que é hora de começar meu relato. Tudo começou no dia em que resolvi me matricular num dos cursos do Departamento de Letras Orientais. Amaldiçoarei este dia até o fim de minha vida. Espero que, se for possível, algum dia Ana me perdoe.
CONTINUA…










Mas é lógico que tinha que ser na Letras!!!
É juvenil! Anda sem o Elder Sign…
Continuemos!