Domingo de manhã a senhora Goldmann foi acordar os netos para o café-da-manhã. Ao entrar no quarto, ela encontrou três leitõezinhos deitados nas camas dormindo profundamente. Desceu as escadas correndo, desesperada, e foi até a cozinha onde estava seu marido e em prantos informou a ele que seus netos tinham pegado a gripe. Esta foi uma situação que aconteceu por diversas vezes ao longo daquele ano por todo o mundo. Ninguém soube como começou a epidemia. Uns falavam que surgiu no México, outros que ela veio do sudeste asiático, outros da África e alguns diziam até que ela teria sido fabricada em laboratórios iranianos para ser utilizada como uma forma de arma biológica. Apesar das mais variadas especulações, no fundo, ninguém sabia ao certo o porque as pessoas começaram a virar porcos da noite para o dia.
Os primeiros casos se pareciam com um resfriado comum. Nariz escorrendo, olhos vermelhos, dores pelo corpo, enxaqueca e febre alta. Depois vieram as mortes. Por volta de duzentas pessoas acabaram morrendo na América do Norte. Umas cinqüenta na América do Sul, cento e cinqüenta na Europa, outras trezentas na África e pouco mais de quatrocentas em toda a Ásia. Isso criou um pânico geral pelo globo, fazendo as pessoas correrem para as farmácias em busca de remédios e máscaras cirúrgicas, na tentativa de se prevenir contra o contágio. Os governos do mundo afirmavam que a contaminação se dava por meio do contato com os infectados, o que começou a esvaziar as ruas e fazer com que as pessoas passassem a ficar trancadas dentro de suas casas. Os contatos entre as pessoas se limitavam aos parentes de uma mesma família e que morassem juntos. Um sentimento de xenofobia cresceu entre as pessoas. Qualquer um podia ser um infectado em potencial.
Entretanto, mesmo com todos esses cuidados e se mantendo encarcerados em seus lares, as pessoas continuavam a se contaminar e manifestar os sintomas da gripe. Passaram algumas semanas até que os cientistas viessem a público para dizer que o vírus acabou sofrendo algum tipo de mutação, alterando a forma do contágio. Na verdade, desde o princípio, eles nunca souberam com certeza como se dava a contaminação. Disseram que o vírus tinha se alterado e desenvolvido a capacidade de infectar através do ar. O mundo entrou num tipo de histeria coletiva. Os estoques de remédios desapareceram rapidamente, farmácias foram saqueadas. Foram registrados alguns suicídios também. Foi neste momento que as autoridades passaram a exigir que a imprensa não divulgasse mais informações sobre a doença para evitar um pânico maior. Mas não foi isso que acalmou as pessoas, e sim o fato de que cada vez menos pessoas morriam vítimas da gripe.
Apesar de sua forma de contaminação ter se aprimorado, sua letalidade tinha enfraquecido. Após esta mudança do vírus, tornaram-se raros os casos fatais de infectados. A partir de então apenas crianças pequenas, idosos e adultos muito debilitados pereciam. O controle da pandemia começava a mostrar sinais de progresso. A gripe, apesar da poderosa capacidade de contaminação, estava se tornando apenas mais um tipo novo de gripe forte que surgiu naquele ano. Mas foi aí que tudo mudou, quando os porcos começaram a aparecer. Foi nos arredores da cidade de Budapeste que o primeiro apareceu. Segundo relatos oficiais, Victor Sebaty era operário de uma fábrica automotiva e estava de licença por causa da gripe. Há uma semana que tinha febre, olhos lacrimosos, muita fraqueza e infectado a esposa e os dois filhos. Certo dia a família do operário acordou e encontrou um porco no quintal de casa e nenhum sinal do operário. A esposa e os dois filhos acreditavam que o marido tinha ido embora de casa. Era a única explicação plausível. Sobre o porco eles não sabiam o que dizer. Três dias depois o porco foi morto, temperado e assado. No quinto dia a mulher e os dois filhos tinham virado porcos também. Nunca ficou claro o aconteceu com eles depois. Tenho para mim que eles também foram devorados, pelos vizinhos.
Outros porcos começaram a aparecer em outros países e numa escala assustadora. Em geral a pessoa apresentava os sintomas da gripe, semelhante a qualquer outro tipo de gripe, e cinco dias depois acordava como um porco. Patas, focinho, orelhas, rabo e etc. Alguns médicos chegaram a dizer que tal mudança teria algo relacionado com o sono, pois as pessoas costumavam acordar transformadas. O que fez as vendas de estimulantes e o consumo de café aumentar por todo o mundo. Mas a falta de sono não impediu que os porcos continuassem a aparecer. A única coisa que se sabia era que antes de se transformarem em porcos as pessoas ficavam gripadas. Assim, decidiram interditar casas, depois áreas residenciais e finalmente bairros inteiros começaram a ser isolados. Devido à velocidade de propagação da epidemia e na incapacidade de um tratamento, ou um melhor método preventivo, guetos de porcos começaram a surgir nas cidades vigiados pelo exército e monitorados por agentes de saúde de diversas áreas.
Muitas famílias, que tinham um parente transformado em porco, se negavam a entregar o animal para as autoridades responsáveis pelo controle da doença. Os “esquadrões lobo-mau”, como ficaram conhecidos, chegavam às casas do infectados através de denúncias anônimas e arrancavam os suínos de seus lares. Não é difícil de imaginar que isso logo gerou indignação e revoltas por parte da população. Pessoas puxando porcos por coleiras iam às ruas gritando palavras de ordem e clamando por medidas mais humanas das autoridades para com os porcos. Associações de defesa dos animais faziam pressão para que os porcos fossem reconhecidos como cidadãos legítimos, uma vez que eles haviam sido humanos. Denúncias de “canibalismo” ocupavam as seções policiais dos jornais. Em resposta, o governo decretou a proibição do consumo de carne suína e aquele que fosse flagrado comercializando ou consumindo tal produto seria acusado de ter realizado um crime hediondo. Criadores tiveram de encerrar suas atividades e esvaziar os chiqueiros, sob a ameaça de serem processados pela justiça por cárcere privado. Como sempre acontece com algo que se torna proibido, novos criminosos surgiram. O temor não era mais por assaltantes e seqüestradores, mas sim ladrões de porcos. Um mercado negro de carne suína surgiu, para o terror de famílias contaminadas e dos grupos de “amigos dos porcos”.
Apesar das reivindicações dos mais diversos setores da opinião pública, os porcos não foram elevados à categoria de pessoas. Mas logo a imprensa criou uma terminologia politicamente correta para se falar dos porcos, agora chamados de “para-humanos”. Estudos foram realizados e não foi possível comprovar que as vítimas transformadas mantivessem qualquer traço de lembrança de sua anterior condição humana. Exames fisiológicos demonstravam que os porcos eram porcos mesmo, sem qualquer traço humano em seus cromossomos. Mas mesmo com estes estudos, os laços afetivos de parentes e amigos pelos porcos não desapareciam. Na verdade, eles foram classificados como inimputáveis. Ou seja, que eles não poderiam ser considerados responsáveis por seus atos. Não eram pessoas, mas também não eram vistos mais como animais. Os porcos entraram numa estranha categoria social, onde também se encontram as crianças, loucos, índios, idosos senis e outras pseudo-pessoas, ou melhor, “para-humanos”. Não demorou muito para surgirem os primeiros casos de casais e casamentos interraciais: humano-suíno. Proliferaram declarações de outras minorias em apoio aos porcos, assim como radicais e extremistas políticos e religiosos contra os pobres suínos. Alguns pastores e tele-evangelistas pregavam que os porcos eram pecadores que estavam sendo punidos por Deus. Mas pararam de dizer isso assim que o líder de uma das maiores igrejas evangélicas acordou numa certa manhã como um belo porcão de pelo castanho. Houve até mesmo um grupo de ambientalista que, sob o nome de “Simpatizantes da Causa Suína”, elaboraram um estatuto dos direitos dos porcos.
Enquanto isso, a ciência não conseguia encontrar uma cura ou determinar exatamente como o vírus atuava no organismo humano, a ponto de altera-lo para a forma suína. Teorias da conspiração nasciam todos os dias. Desde as mais clássicas, dizendo que o governo estaria por trás de tudo como parte de um plano maligno, até as que afirmavam estarmos sendo vítimas de experiências alienígenas ou uma invasão de outra dimensão. A única coisa que se sabia era que de alguma maneira, as transformações estavam ligadas com a gripe. Mas foi ai que as coisas pioraram. Pessoas começaram a se metamorfosear em porcos sem ter apresentado qualquer tipo de sintoma de gripe ou contato com outro infectado. Algumas se transformavam lentamente, para o sofrimento e desespero de todos. Dia a dia o infectado via seu rosto no espelho se metamorfoseando, suas orelhas se deformando, pelos crescendo, o focinho se alongando e a capacidade de falar se tornando cada vez mais difícil. Outros se transformavam imediatamente. Em um instante era humano, um espirro e depois era um porco. Devido a isso, um avião caiu na Rússia matando duzentas e cinqüenta passageiros, a tripulação o co-piloto e um “porco piloto”. Acidentes semelhantes aconteciam nas ruas e estradas de vários países. Durante aquele ano, o mundo havia se transformado num grande chiqueiro.
Pouco a pouco os porcos foram dominando o mundo. O mundo da moda sofreu uma revolução, com roupas próprias para eles e agências com porcas top-models. Livros de auto-ajuda para uma vida mais harmoniosa com os suínos. Nasceu toda uma indústria de cosméticos e a proliferação de clínicas veterinárias chiques para os suínos mais abastados. Até agências matrimonias entre porcos surgiram para que os suínos pudessem procriar e constituir família, para a alegria de seus parentes humanos.
O ano acabou e parecia que o mundo já se estava habituado a dividi-lo com o mais novo companheiro do homem: o porco. A gripe dava sinais que estava desaparecendo. Cada vez menos pessoas eram infectadas e transformadas em porcos. A economia mundial e a sociedade já tinham se adaptado aos porcos. Mesmo pessoas que não tinham ninguém próximo que sofreu a transformação, adotavam porcos comuns ou leitõezinhos que nasciam nas ninhadas das famílias dos novos suínos para-humanos que não tinham condições de cria-los. O mundo era uma grande utopia suína.
Três anos se passaram quando uma nova gripe surgiu. Ninguém sabe ao certo como ela surgiu. Uns dizem que os primeiros casos foram na África do Sul, outros que foi no Canadá e outros que tudo teve início na Índia. A única coisa certa era que ela só infectava suínos e era mortal. Uma vez infectados, em três ou quatro dias o doente já estava morto. Os sintomas se pareciam com uma gripe comum de porcos, mas logo vinham as convulsões, espasmos e por fim o óbito. A corrida a clínicas e hospitais veterinários foi tremenda. Em poucos meses se tornou uma pandemia que se abateu sobre o mundo como uma praga bíblica. Qualquer forma de controle e prevenção era inútil. Assim como foi a primeira gripe, esta também parecia ser transmitida pelo ar. Novas cenas de caos e desespero tomaram as ruas. Eram tantos os mortos que crematórios públicos coletivos foram construídos para evitar a propagação da doença. Linhagens inteiras de para-humanos desapareceram. Curiosamente, os “suínos naturais”, assim chamados os porcos que eram porcos e não os transformados, resistiam muito bem à doença tendo pouquíssimas mortes. Ao final de um ano, a população de suínos para-humanos havia sido varrida da face Terra devido à gripe.
Nunca ficou clara a causa da segunda pandemia. Sem os para-humanos o mundo começou a voltar ao normal, ainda que um grande sentimento de luto pairasse no ar. Mas a vida continua e as pessoas se recuperaram de tamanha tragédia.
Cinco anos depois o consumo de carne suína foi liberada novamente, e todo o episódio das pandemias virou história para documentários e romances baratos. Ainda existem grupos preocupados com o direito dos porcos, de que talvez ainda existam sobreviventes para-humanos. Mas ninguém lhes dá muita atenção.
Segundo os noticiários de ontem, surgiu uma nova gripe na Ásia. Uma versão mais forte de uma gripe vinda dos pássaros. Já existem vários casos de contaminação na Europa e Estados Unidos. Até então já morreram por volta de duzentas pessoas. Inclusive há um boato de uma senhora em Taiwan que acordou transformada em galinha. Outro boato diz que no interior da Inglaterra um senhor de sessenta anos foi transformado em galo, já em Sevilha, na Espanha, duas crianças viraram dois lindos pintinhos amarelos. Provavelmente teremos novos para-humanos para cuidarmos, nos preocuparmos e despejarmos nossas frustrações. Mas isso pouco me importa, desde que eu possa continuar comendo minha feijoada às quartas-feiras.
FIM










Urgente!!!!!
Quem escreveu esse texto sobre a gripe Suína.
urgente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Fomos nós mesmos…