Ele ainda estava se acostumando com o apartamento novo. Tinha se mudado há umas duas semanas e meia. Era um prédio novo, num bairro que estava sendo cada vez mais valorizado. Assim que o projeto do edifíco foi anunciado ele se empolgou e logo foi visitar o stand da construtora. Foi paixão à primeira vista. Fechou o contrato de compra e a partir dai foram três anos de espera, até que finalmente pudesse colocar os pés em seu novo lar.
O apartamento ainda exalava tinta e o cheiro forte da madeira dos armários. Na realidade, era justamente tais cheiros que o estava incomodando. Não que fosse alérgico ou algo parecido, mas ainda não estava acostumado com os novos odores. Porém, o que mais lhe incomodava nos últimos dias era o barulho que seu vizinho de baixo fazia durante à noite.
No começo era como que um som de lixa, mas com o passar do tempo, som de marteladas surgiram. O pior é que o barulho sempre começava durante a noite. Lá por volta das onze horas da noite. Às vezes, quando perdia a paciência, batia forte com os pés calçados contra o chão, na tentativa do vizinho perceber que estava incomodando. E ao que parecia, acabou dando resultado. Já tinham passado dois dias em absoluto silêncio. E finalmente ele pode dormir tranquilamente. Pode dormir e até mesmo sonhou.
Foi um sonho estranho. Sonhou que estava em seu apartamento novo, mas não era exatamente ele. Na verdade era ele, mas havia voltado à infância. Era um garoto de uns dez anos de idade. E ao invés da cama de casal que tinha em seu quarto novo, haviam duas camas de solteiro. A dele e a outra a de sua irmã de seis anos. No sonho, ele também estava dormindo, mas acordava assustado ao ouvir um barulho estranho. O quarto estava escuro, sendo iluminado apenas pelas luzes mortiças dos postes da rua. Ele se virava na direção da cama de sua irmã, se ocultando debaixo do cobertor, deixando apenas os olhos de fora. Sua irmã dormia tranquilamente, mas o barulho continuava. Ele vasculhou o quarto com os olhos, procurando a fonte do som que ouvira, e horrorizado o localizou: vinha debaixo da cama da irmã.
O barulho parecia com o som abafado de uma dobradiça precisando ser lubrificada. Estava em pânico, mas não conseguia se mover ou gritar, apenas continuar a olhar. Após o barulho ter cessado, ouviu vozes sussurrando, e viu que alguém havia acabado de sair debaixo da cama de sua irmã. Não via claramente, mas era um vulto, do tamanho de uma pessoa adulta. O vulto se aproximou da irmã e a examinou. Alguém conhichou algo para o vulto, que se deteve e respondeu sussurrando também. Ele não pode compreender o que diziam. O vulto então retirou o cobertor que cobria sua irmã e delicadamente a pegou em seu braços, desaparecendo com ela para debaixo da cama. Novamente o som da dobradiça foi ouvido e por fim, o silêncio. Sem mais poder se controlar, e como que libertado de um tipo de transe, ele finalmente gritou em desespero e horror!
Gritava usando toda a força de seus pulmões, sentado na cama. Foi só então que percebeu que havia despertado. Aos poucos foi se controlando e tomando consciência que estava em seu quarto, sozinho, e que não era mais uma criança. Estava ofegante e olhava para todos os lados, para ter ceteza de onde estava. Mais calmo, repetiu a si mesmo que tudo não passou de um sonho. Deitou-se novamente e se concentrava para controlar sua respiração e poder voltar a dormir.
Já estava quase pegando novamente no sono quando ouviu o o som de dobradiças, o mesmo som apavorante de seu sonho, vindo agora debaixo de sua cama. Pulou da cama num salto, correu até a escrivaninha e apanhou um estilete. Voltou até a cama e num único golpe virou a cama de pernas para o ar, buscando a dobradiça ou a porta que deveriam estar lá. Não havia nada. Acalmou-se, e se convenceu de que deveria estar sonhando novamente. Arrumou a cama, deitou-se mas não conseguia dormir. Levantou-se, pegou o travesseiro e o cobertor e terminou dormindo o resto da noite no sofá da sala, com o estilete ao seu lado e dizendo a si mesmo: “Foi um sonho. Apenas um sonho.”
continua…









