Prólogo
Mais uma vez o sol se punha em Enea. Mais um dia chegava ao fim, e Scedric de Airan sabia que com isso muitas disputas ainda se arrastariam pelos próximos dias até a coroação do Alto-Rei. Aquele era o vigésimo primeiro dia de Ganinm, e o décimo quinto desde a morte de Fedael ca’Shelyon, da tribo dos horidas, o último senhor de Karlaeyh. A brisa marítima refrescava a costa de Yorhsalir, trazendo alguns instantes de paz à face do jovem príncipe, mas não o bastante para faze-lo se esquecer da razão de estar na Grande Cidade naquele dia quente de primavera. Aqueles eram os dias do Conclave, quando os reis das doze tribos maiores iriam escolher o novo senhor da Coroa de Rubi, aquele que deveria governar as ilhas do grande oceano.
O filho de Shelyon havia governado as ilhas por quarenta e oito invernos. Quando foi coroado Alto-Rei a guerra impregnava como uma doença as ilhas de Ascher: Yorhsalir, Edoma e Anghlar eram banhadas com o sangue de seus filhos. A princípio ele se viu solitário, eram tempos em que o poder do Trono do Dragão não passava de uma mera tradição dos tempos dos patriarcas, sem mais nenhuma importância real. Um mero joguete a ser manobrado segundo os desejos políticos das tribos. Porém, Fedael de Hor foi diferente e prosperou sob os céus, submetendo cada uma das tribos ao longo da costa ascheriana a sua coroa e impôs a ordem nas ilhas. Ele foi um bom rei.
Entretanto, esta não era uma paz verdadeira. Todos sabiam que assim que Fedael fosse ao encontro de seus ancestrais, o caos poderia se erguer mais uma vez. Por isso aquele Conclave era tão importante, pois quem quer que fosse aclamado pelos reis tribais teria a difícil tarefa de conciliar os interesses de todos, e quem sabe a esperança de prolongar por mais algum tempo o legado do filho Shelyon.
A última comitiva que faltava estava chegando naquele final de tarde. Imediatamente os olhos de Scedric reconheceram o estandarte do rei Merari de Gadhar, a tribo do sul de Anghlar conhecida por suas grandes embarcações de proa curvada e seu vinho forte de gosto amargo. A imagem do falcão do mar em cinza sobre um fundo azul era a insígnia de Gadhar, e o próprio rei sempre levava consigo um desses pássaros cada vez que tinha de realizar alguma viagem para muito além de seus domínios. Diziam que Merari era muito supersticioso e sempre temeu morrer longe de sua terra-natal e seu espírito não achar o caminho para a casa de seus antepassados, tornando-se um scheddohgan, um habitante das sombras, um não-morto, um ser condenado a vagar sem descanso até o fim dos tempos. Já com a presença de um falcão do mar, ele acreditava que o pássaro poderia guia-lo de volta para casa em segurança.
Aquela era uma comitiva formada por no máximo quinze homens, segundo o que Scedric pode contar rapidamente – muito provavelmente o restante estava em algum navio atracado na costa – além de um garoto que não deveria ter vivido mais que treze invernos e que carregava o estandarte bem ao lado do rei. Devido à semelhança dos trajes que usavam – calças e camisa cinzentas, cobertas por uma túnica azul-escura presa ao ombro por um grande broche dourado – e os traços faciais, o rapaz com certeza devia ser um dos filhos de Merari. O garoto pode notar o olhar observador de Scedric do alto da muralha pouco antes de entrar na Cidade e perde-lo de vista. Assim que o último homem da comitiva do rei dos gadharidas atravessou o portão sul da Cidade, o fecharam imediatamente. Karlaeyh, a Grande Cidade, sagrada para os ascherianos e coração do governo das ilhas estava fervilhando com os visitantes.
O príncipe da tribo de Airan ergueu os olhos novamente rumo ao horizonte, com ar calmo, porém preocupado. Diferente dos dois dias anteriores, não iria chover esta noite; ao menos as nuvens não pareciam pesadas hoje.
Lá ele permaneceu até que o sol desaparecesse e o céu estivesse salpicado de estrelas. Era possível ver Amran se erguendo no horizonte, a constelação do Grande Leão, que também era o símbolo da tribo de Airan. Scedric refletiu sobre aquilo, seria um bom augúrio? O príncipe de Airan havia chegado a Karlaeyh há três dias, com uma comitiva de vinte e sete homens. O certo seria que seu pai, o rei Elesch dos airanidas, estivesse lá também. Entretanto, Elesch já era um homem idoso e de saúde debilitada. Provavelmente ele não suportaria uma viagem como aquela. Na verdade, há certo tempo que o príncipe Scedric e os demais conselheiros representavam a vontade do rei. Desta forma, o rei Elesch decidiu enviar seu filho como seu representante no Conclave, e era isso que preocupava Scedric. Uma coisa era cuidar da administração local das terras de Airan, outra é ser uma voz ativa nas disputas políticas que definirão o destino das ilhas.
Um som, que parecia longínquo, o trouxe de volta de seus pensamentos. Lá embaixo um homem de cabelos cinzentos o chamava. Provavelmente ele estava ali há muito tempo chamando pelo príncipe, mas só agora havia sido notado. Apesar de tê-lo ouvido, Scedric não podia compreender o que o homem dizia devido ao intenso barulho da cidade. Ele acenou para o homem, indicando que parasse de gritar e se encaminhou para a escada no fim da muralha.
Assim que chegou ao final da escada que dava acesso a muralha, teve de desviar de alguns guardas que perambulavam naquela área até alcançar o tal homem. Era um homem baixo, bem mais baixo que Scedric, porém robusto, apesar da idade. Os cabelos cinzentos e a barba já grisalha não podiam esconder o preço cobrado pelo tempo. Uma cicatriz no canto do olho esquerdo o mantinha levemente mais fechado que o outro, dando um ar de certa brutalidade ao seu olhar cinzento. Ele coçava a barba com certa impaciência, enquanto aguardava o jovem príncipe se aproximar.
“O que é? Aconteceu alguma coisa?”
“Meu senhor, estou lhe procurando por toda parte! Sua presença se faz necessária imediatamente no salão real!”
“Mas o que aconteceu? Respire homem! Diga, por que eu devo ir agora para o salão real? O banquete deve ocorrer só mais tarde, Merari acabou de chegar!”
O homem estava claramente ansioso para que Scedric o acompanhasse.
“Meu senhor, por favor, me acompanhe! Explicarei tudo no caminho. Mas é preciso que o senhor vá imediatamente para o salão real. Os outros reis estão lá reunidos. Ao que parece Manasch de Neondor convocou uma reunião secreta, meu senhor! Algumas horas atrás ele mandou informar a todos os outros reis para se dirigirem ao salão do Trono do Dragão, pois os sacerdotes acreditam que os augúrios estejam favoráveis!” – eles caminhavam depressa, e por vezes esbarravam nos transeuntes, quase derrubando alguns, mas de repente o velho parou e segurou o príncipe com força pelo braço e com o olhar fixo – “Meu senhor! Manasch deseja escolher agora o Alto-Rei! Esta noite, Manasch deseja tornar-se o Alto-Rei!”
Scedric estava confuso e permaneceu onde estava, atônito. Foi praticamente arrastado pelo velho servo, rumo ao salão. Quando se recobrou do susto, puxou seu braço, se livrando do aperto de mão do velho.
“Espere! Hama, espere! Como você sabe disso?”
“Meu senhor, não temos tempo para isso! Devemos nos apressar ou o senhor terá de voltar para Airan como súdito de Manasch e daquele bando de abutres que ele chama de família!”
“Mas Hama, isso não faz sentido! Por que os sacerdotes diriam que estamos com bons augúrios somente para Manasch, e por quê realizariam uma reunião sem que todos os reis estivessem presentes?”
Neste momento o velho Hama parou alguns passos à frente de Scedric. O príncipe quase acreditou que seu servo continuaria sem ele, mas o velho estava parado. Ele então suspirou e se virou, encarando seu mestre bem de perto, quase sussurrando.
“Meu senhor, Scedric, eu o conheço desde que nasceu. Eu mesmo lhe ensinei a manejar uma espada e como andar num cavalo. Eu o vi lutando e sendo vitorioso. O senhor sempre foi um ótimo aprendiz, nunca me decepcionou, pois sei o quão esperto é. Sei que o senhor está nervoso com toda essa coisa de ter de representar seu pai num evento tão importante como esse, e que isso às vezes pode nublar nossa mente. É por isso, e só por isso, que eu não darei uma bofetada no senhor para que acorde e veja o que está acontecendo. Os sacerdotes não disseram nada, foi ele, aquele carniceiro do norte, aquele porco de Neondor que inventou tudo isso! Ele quer o trono o mais rápido possível, e sem resistências! Por isso não quis chamar o senhor, por isso não esperou Merari…entendeu?” – Hama terminou de falar, mas continuava a olhar fixamente para Scedric como se estivesse prestes a devorá-lo vivo.
Aquilo foi como a bofetada que o velho havia dito que daria. De repente Scedric sentiu como desperto de um sonho estranho. Hama estava certo, seu pai não o tinha enviado até lá se o achasse um estúpido, um covarde. Ele deixou-se tomar pela ansiedade de decepcionar seu pai e a si mesmo. Mas o velho Hama o trouxe de volta à realidade.
“O medo é o fantasma da alma.” – ele disse a Hama.
O velho sorriu e conduziu o jovem príncipe com a mão sobre seu ombro – “É o que diz a Canção de Tistram, não é? Seu pai sempre gostou de cantá-la para vocês quando eram pequenos. Bem, e antes de vocês, ele a cantava para nós: um bando de homens sujos de lama e sangue, com frio, acampados esperando o amanhecer para enfrentar algum desgraçado que ameaçava as terras do leão vermelho. Lembre-se dessas palavras meu jovem senhor, pois lá dentro terá uma batalha a vencer.”
Não muito longe dali se encontravam outros três homens que guardavam o cavalo de seu senhor. Scedric e Hama rapidamente montaram e, seguidos pelos outros homens, cavalgaram rapidamente para o local onde a reunião secreta estava prestes a se desenrolar. Eles percorriam as ruas da cidade a toda velocidade, assustando os transeuntes que abriam caminho ao som oco de cascos contra o solo.
Finalmente, estavam frente ao salão real, o salão do Trono do Dragão, onde o novo Alto-Rei deveria ser escolhido. Mas logo que chegaram, notaram os homens de Neondor cercando a construção. Scedric instintivamente levou sua mão a cintura onde deveria estar o punho de sua espada, mas nada encontrou. Era proibido portar armas dentro da Grande Cidade. Entretanto, pelo o que eles podiam ver, os homens do rei Manasch não estavam se importando muito com tal lei.
“Achava mesmo que o deixariam entrar livremente no salão, meu senhor? Mas não se preocupe, eu chamei mais alguém para nos acompanhar.” – e Hama esboçou um sorriso, enquanto soldados de escudos vermelhos se aproximavam..
* * *
Estava abafado dentro do salão. Ao centro se estendia por uma longa extensão o fogo que servia como a única iluminação do local no momento. Era como um tapete de chamas ao centro do recinto. O ar estava impregnado de fumaça e pelo cheiro de ervas aromáticas que queimavam sobre o fogo, usadas pelos sacerdotes, dando um certo ar sobrenatural ao ambiente. Duas longas e sólidas mesas de madeira estavam posicionadas de lados opostos junto ao fogo, e na cabeceira, num tablado três degraus mais elevado que o restante do salão, havia três grandes cadeiras. As duas menores eram de madeira de carvalho, entalhadas com imagens de animais estilizados. Porém, entre elas se erguia uma cadeira muito maior, com um encosto muito mais elevado e assento amplo, de uma madeira escura, quase negra, e entalhada com antigos caracteres e figuras de animais: o Trono do Dragão. Ele estava vazio, mas era um dos poucos locais desocupados do recinto naquela noite. Libahseldes, o “Salão dos Reis”, era o coração de Karlaeyh e, por conseguinte, de Ascher.
O Salão dos Reis estava localizado sobre uma colina na região central da Grande Cidade. Na verdade Karlaeyh era uma ampla fortaleza de pedras do tempo dos patriarcas ascherianos, localizada próximo ao promontório de Car’Aman, no extremo oriental da ilha de Yorhsalir. Do alto da Colina dos Patriarcas, como era conhecida, era possível ter uma visão de quase toda cidade. Qualquer um que estivesse chegando a Karlaeyh, a primeira coisa que veria, além das muralhas, seria o próprio Libahseldes.
O Salão dos Reis era uma grande construção de madeira e pedra, imponente, sobre alicerces de pedra, amplo e extenso, lembrando a forma de uma grande embarcação. Seu telhado escuro era sustentado por enormes colunas de madeira ricamente decoradas em dourado e com antigos símbolos e imagens de homens e animais entalhadas em toda sua superfície. Segundo a tradição, teria sido ali que os patriarcas de Ascher teriam escolhido o primeiro Alto-Rei, da linhagem do próprio Aschaglarond. Os mesmos que teriam dado origem a cada uma das doze tribos maiores das ilhas.
A fumaça gerada pela queima das ervas era tão intensa que tornava difícil a identificação dos presentes. Enquanto isso, os sumo-sacerdotes do culto dos patriarcas, os Guardiões da Lei, entoavam cânticos de louvor aos antepassados, sentados nas cadeiras juntas ao trono, enquanto outros quatro sacerdotes caminhavam em torno do fogo repetindo os cânticos e jogando as ervas no fogo. As vozes graves dos sacerdotes ecoavam por todo o salão de forma perfeita, aumentando ainda mais o aspecto sobrenatural da cerimônia. Era como se tudo aquilo fizesse parte de um sonho para seus espectadores.
Após longo tempo, a cerimônia chegava ao fim. Pouco a pouco a neblina foi se dissipando, mas o cheiro forte e adocicado das ervas ainda impregnava as narinas dos presentes a ponto de alguns estarem até um pouco enjoados. Um dos Guardiões se ergueu de forma solene. Passou a mão pela longa barba cinzenta e pronunciou a antiga saudação.
“Schaddam alaifar! Sejam bem vindos a este nobre salão mais uma vez os de sangue nobre, das linhagens patriarcais!”
Houve um momento de silêncio, interrompido apenas pelo som baixo de tosses e gargantas pigarreantes. Um dos sacerdotes, um jovem de dezenove anos, se aproximou do outro Guardião que ainda permanecia sentado e lhe entregou um rolo grande de pergaminho preso a uma haste de madeira ricamente decorada em dourado. Outros dois sacerdotes prontamente desenrolaram o pergaminho e o sustentavam aberto em um trecho específico em frente ao Guardião. Com muita dificuldade ele se ergueu, apoiando-se num dos braços da cadeira e em seu cajado. Ele era um homem de idade muito avançada, um dos mais velhos, senão o mais velho, de Ascher. Estava vestido com uma longa túnica branca coberta por um manto negro, o traje típico dos sumo-sacerdotes. Em seu peito pedia um medalhão prateado com um rubi incrustado, assim como um rico anel dourado, com uma grande pedra negra; ambos símbolos de seu poder sacerdotal. Todos os sacerdotes usavam longas barbas e cabeças tonsuradas. Entretanto, o velho Guardião já não possuía mais cabelos a serem tonsurados, mas sua longa barba branca pendia sobre o pergaminho. Assim que se curvou para ler o texto a sua frente, o outro sumo-sacerdote, não tão velho quanto ele, se aproximou e passou a ler ao seu ouvido o que estava escrito, para que assim ele pudesse repetir em voz alta. Uma voz trêmula, mas ainda assim poderosa.
Um longo sermão foi iniciado, contando sobre os dias de outrora, quando as tribos viviam em guerra e de como as nuvens negras da morte pairavam sobre as ilhas. Falou também como o povo era ignorante e selvagem, e como eles haviam se afastado e distorcido a vontade do Eterno, aquele cujo nome não deve ser pronunciado por lábios mortais. Disse também como, em meio ao caos, veio a salvação através de um dos Antigos: Ashaglarond, o Vermelho, a Espada do Eterno. Falou a eles como ele se uniu às filhas dos homens, e delas nasceram doze crianças; e de como essas crianças cresceram em força e sabedoria e trouxeram a ordem entre o povo e se tornaram os Doze Patriarcas de Ascher.
“E para este local eles vieram e construíram uma fortaleza e um salão de reis. E em Conclave escolheram o primeiro Alto-Rei, e assim a paz se instaurou nesta terra. E assim deve ser agora e para todo o sempre. Esta é a Lei!”
Assim que terminou a leitura, o velho Guardião começou a tossir violentamente, sendo amparado pelos demais sacerdotes. O fizeram sentar e lhe deram um pouco de vinho, até que se acalmou. Uma vez que tudo voltou ao normal, o outro Guardião da Lei se voltou para os presentes.
“Assim como os Patriarcas fizeram, nós também nos reunimos em Conclave para a escolha de um Alto-Rei. Desta forma, quem aqui se acha digno de se tornar portador da Coroa de Rubi e lorde protetor de Ascher?”
Tudo isso, logicamente era mero cerimonial. Tal decisão era tomada na verdade através de negociações e estratagemas políticos durante os banquetes que antecediam o dia do Conclave. O dia em si servia apenas para confirmar o que deveria estar definido nos dias que antecederam a cerimônia. Entretanto, segundo a Lei, era necessário que a escolha fosse unânime. Logo, naquele momento o salão real estava ocupado apenas por aqueles em quem o rei Manasch de Neondor confiava, sabia que poderia comprar ou intimidar. Pois, como todos sabiam, há muito que as palavras de paz do antigo pergaminho não passavam de história antiga, e a guerra estava mais presente do que nunca.
O Guardião da Lei repetiu a pergunta, mas ninguém se manifestara. Um certo ar de tensão pairava no recinto. Os reis tribais se entreolhavam, murmuravam de forma quase inaudível. Os servos que os acompanhavam e demais convidados estavam paralisados, esperando o que pudesse ocorrer. Entretanto, todos os olhares pairavam sobre a figura que se sentava ao centro da mesa esquerda do Trono do Dragão. Ele esboçava um sorriso de canto de boca, um sorriso tranqüilo de alguém que está seguro de si. Ao se levantar um burburinho tomou conta do salão. Era um homem alto e forte. Tinha longos cabelos negros, os longos cabelos que simbolizavam as tribos maiores e o sangue da nobreza. Sua barba bem aparada, seus olhos escuros e seu porte lhe davam uma aparência intimidadora. Estava usando uma cota de malha escura e um manto negro, preso ao ombro com grande broche prateado. Claramente era uma figura que se destacaria na multidão, talvez trajado propositalmente para se parecer com um rei.
“Eu, Manasch rei de …”
Inesperadamente ele foi interrompido pelo som abrupto das portas do salão se abrindo, e pelo som de homens entrando apressadamente. Um rapaz rapidamente correu até a mesa e cochichou algo para o jovem nobre sentado ao lado de Manasch e se afastou mais rápido ainda. O rei de Neondor imediatamente voltou-se para o jovem ao seu lado, que lhe informou o que ocorria. No mesmo instante seu semblante perdeu a confiança que mantinha até então, e sentou-se novamente enquanto fitava com fúria a entrada do salão.
Lá havia entrado um grupo de nove soldados da guarda da cidade munidos de lanças e escudos. Os soldados da guarda de Karlaeyh eram os únicos a terem permissão de portarem armas no interior da cidade. Os Dragões de Karlaeyh eram facilmente identificáveis, pois portavam escudos redondos de madeira pintados de vermelho, usam cotas de malha, mantos vermelhos e elmos dourados com cristas feitas de rabos de cavalos tingidos de vermelho que pendia por suas costas. Eles eram a temida tropa de elite do Alto-Rei. Eles eram convocados de todas as partes das ilhas ainda bem jovens, aproximadamente com dez anos de idade, e passavam por um intenso treinamento sob o olhar atento do chefe da guarda da cidade, o Lid’Shamtaces, o “mestre dos dragões”. Normalmente os Dragões obedeciam apenas ao Alto-Rei, entretanto, na ausência do mesmo, sua lealdade era para com o chefe da guarda.
“Mas o que significa isso?” – gritou o sumo-sacerdote que permanecia de pé.
Nesse momento um homem, vestido exatamente como os demais soldados, tomou a frente, retirando seu elmo e o entregando ao soldado a seu lado. Ao retirar o elmo revelou um homem já de meia-idade, de cabelos castanhos, mas já com alguns fios brancos, e uma barba rala de alguns dias. Ele se adiantou mais alguns passos e fez uma mesura.
“Peço perdão, honorável Guardião da Lei. Não era minha intenção interromper tão importante cerimônia, mas foi necessária a intervenção dos shamtaces. Homens armados cercavam Libahseldes e impediam que nobres convidados viessem até este Conclave”.
“Do que está falando chefe da guarda?”
“Homens armados, honorável Guardião. Eles desrespeitaram a Lei e tentaram impedir que nobres reis viessem a esta cerimônia.”
Enquanto isso, o velho Guardião que estava sentado, sem entender bem o que ocorria gritava. “Blasfemadores! Como ousam interromper uma cerimônia tão importante! Nada pode interromper um Conclave! O Libahmott é sagrado! Esta é a Lei!”. Rapidamente os outros sacerdotes correram até ele para acalmar o ancião.
“Diga chefe da guarda! Quem são esses homens?”
O chefe da guarda hesitou por um momento, mas acabou por dizer.
“Ao que parece, eles seriam homens de Neondor.”
Diversas vozes se elevaram espantadas. Demorou até que a ordem voltasse ao salão e o sumo-sacerdote voltasse a falar. Ele mantinha seu olhar fixo em Manasch enquanto se dirigia ao chefe da guarda.
“Você tem certeza disso?”
“Foi o que me disseram, honorável Guardião.”
O Guardião da Lei voltou-se para o rei de Neondor. Mantinha um porte austero e tentava transparecer toda sua autoridade ao falar.
“Manasch, nobre rei de Neondor, é verdade isto o que nosso Lid’shamtaces acaba de dizer?”
Manasch permaneceu olhando para o chefe da guarda antes de responder a pergunta do Guardião. Ele se levantou novamente, limpou a garganta e só então falou. Sua voz era calma e muito clara.
“Estou chocado! Eu lhe asseguro, venerável Guardião da Lei, que desconheço isso tudo. De forma alguma ponho em dúvida a palavra de nosso bravo chefe da guarda, mas se realmente estes baderneiros, estes blasfemadores, são oriundos de minhas terras, eu garanto que eles serão punidos com extremo rigor.”
“Que assim seja!” – disse o sumo-sacerdote.
“Caro chefe da guarda, leve os prisioneiros e os detenha até que o nobre rei de Neondor decida o que fazer com eles”. – e já pretendia retomar a cerimônia, quando notou que o chefe da guarda ainda permanecia lá.
“Mais algum assunto, chefe da guarda?”
“Honorável Guardião, eu não poderei cumprir suas ordens. Os ditos homens resistiram à chegada dos soldados e… todos foram mortos. Eram dez ao todo.”
O Guardião da Lei permaneceu calado, espantado com a última informação. O chefe da guarda pode notar um leve sorriso, muito discreto, no rosto do rei Manasch. Com os homens mortos, nunca seria possível realmente comprovar se eram mesmo homens de Neondor, pensou o chefe da guarda. Porém, com aquele sinal, ele havia confirmado sua suspeita.
“Guardião da Lei, peço permissão para deixar os nobres convidados que estão lá fora adentrarem o salão.”
O sumo-sacerdote fez um aceno afirmativo com a cabeça, e respirou fundo para se recompor dos últimos momentos. Enquanto isso, um dos jovens sacerdotes terminava de contar ao velho Guardião o que havia ocorrido, deixando o velho atônito.
“Mortos? Oh, isso é um mau presságio! Sangue foi derramado frente ao Salão dos Reis! Nuvens escuras pairam sobre nós! Oh, desgraça, desgraça!”
Mais uma vez correram para calar o Guardião da Lei. Mas desta vez, as palavras do velho sacerdote surtiram efeito, e alguns dos presentes pareciam realmente convencidos do mau presságio que se anunciava. Após longo tempo, o outro Guardião da Lei conseguiu trazer novamente a ordem ao salão.
“Silêncio! Vamos retomar o Conclave. Que os últimos convidados entrem. Chefe da guarda, por favor, traga-os.”
O chefe da guarda fez uma nova mesura e girou em seus calcanhares saindo do salão, sendo seguido pelos soldados. Logo depois entraram os convidados, seis homens e um rapaz. O primeiro a entrar foi o rei Merari de Gadhar, seguido de seu jovem filho. Merari era um homem muito alto e corpulento. Seus cabelos compridos e a vasta barba negra e a pele morena devido à exposição ao sol, davam um aspecto selvagem ao senhor dos gadharidas. Seu filho parecia uma cópia exata do pai quando tinha a mesma idade, um jovem muito desenvolvido em relação aos rapazes de sua idade. A eles seguia Scedric de Airan e o leal Hama. Depois veio o valoroso rei Eoric de Schedullus, o esquálido Enferhd de Seschef e por fim, o desconfiado rei Baras de Beori.
Todos ao entrar permaneceram de pé, realizaram uma reverência aos sacerdotes e se dirigiram para os lugares vagos nas mesas. Entretanto, antes de ir para seu lugar, Merari jogou a ponta esquerda de seu manto por sobre o ombro, e com as mãos na cintura olhou bem para todos no salão e sorriu.
“Ora, eu achava que a festa ia começar só daqui a três dias! Pensaram que iam começar sem mim?” – e se dirigiu ao seu lugar rindo e despertando o mesmo em alguns dos presentes.
Mas os sorrisos logo morreram sob aos brados do Guardião da Lei. Todos os recém chegados se acomodaram na mesa à direita do Trono. Enquanto se ajeitavam em seus lugares, Manasch os seguia com os olhos sob as sobrancelhas, transparecendo todo o seu descontentamento. Imitado pelo jovem que estava a seu lado, seu filho Urzan.
Os servos sentaram-se nos grandes bancos juntos às paredes, pois a mesa era exclusiva para os reis e príncipes. Scedric olhava para Manasch, não com raiva, mas com curiosidade. Nunca tinha visto o rei de Neondor pessoalmente, apenas ouvido as histórias que seu pai e Hama lhe contavam. Histórias assustadoras, de torturas, bruxarias e horrores indescritíveis. Ele esperava encontrar um monstro ou algum tipo de feiticeiro louco e maltrapilho sujo de sangue que entoava cânticos para as criaturas que habitam as sombras. Mas ao contrário, a sua frente estava um rei muito bem vestido e austero. Talvez Hama exagerasse um pouco, afinal ele foi escravo nas terras de Neondor, tendo escapado durante uma batalha há muito tempo atrás contra Ghadar, onde seu pai estava como aliado do velho rei Ascari, pai de Merari. Hama fugiu do exército ashurida e foi acolhido, na época, pelo jovem rei Elesch, tornando-se seu mestre de armas. Hama odiava Neondor, e principalmente sua família real. O leal servo sempre dizia quando o assunto era Neondor: “do norte espere apenas ventos e pesadelos”. De qualquer forma sabia que devia ser cauteloso com Manasch.
O sumo-sacerdote, mais uma vez, retomou a cerimônia e repetiu a pergunta cerimonial.
“Assim como os Patriarcas fizeram, nós também nos reunimos em Conclave para a escolha de um Alto-Rei. Desta forma, quem aqui se acha digno de se tornar portador da Coroa de Rubi e lorde protetor de Ascher?”
Ouve um novo silencio, e todos olhavam para Manasch. O rei de Neondor entretanto não se levantou. Permaneceu sentado, observando os novos convidados, e os mesmos retribuíam o olhar. Era como se eles o estivessem desafiando a dar prosseguimento ao seu plano, agora que eles estavam ali. O sumo-sacerdote repetiu a pergunta mais uma vez e uma terceira vez, até que Manasch, muito hesitante ergueu-se. Sua voz não possuía a mesma confiança de antes, mas mesmo assim se apresentou.
“Eu…eu, Manasch ca’Culvuh, rei de Neondor, me apresento frente ao Libahmott para receber a Coroa de Rubi para proteger e trazer a paz às ilhas assim como diz a Lei.”
A esta apresentação, o Guardião da Lei respondeu solenemente.
“Manasch, filho de Culvuh dos neondoridas! Eu reconheço sua linhagem patriarcal e digo ser digno ao Trono do Dragão! Quem dentre vós, apóia o nome de Manasch de Neondor?”
Neste momento quase todos se ergueram, menos os quatro recém chegados, que permaneceram sentados. Um certo constrangimento tomou conta de todos que estavam de pé, o que encheu Manasch de raiva. O velho sacerdote, de sua cadeira gritou com sua voz cavernosa, se antecipando ao outro Guardião que já ia se pronunciar.
“O Ar’Libah deve ter a aprovação de todas as tribos, para que assim a paz prevaleça entre os filhos de Ashaglarond! Esta é a Lei!”
Neste momento, num gesto desesperado e furioso, Manasch clamou aos sumo-sacerdotes.
“Oh, venerável Guardião Honferd, mais sábio e mais velho daqueles que falam através dos Patriarcas! Eu conheço a Lei, porém há aqueles entre nós que a conhecem e a desrespeita. Eles não tem interesse em trazer a paz para nosso povo. Nove das tribos estão de acordo. Zombam de nós e Lei, pois interrompem o Conclave e agora causam transtorno num momento tão delicado quanto este.”
Com o discurso de Manasch, algumas poucas vozes gritaram em aprovação, clamando pela validação da escolha. Enquanto isso os dois sumo-sacerdotes conversavam, mas o velho Guardião gritou novamente, sendo enfático:
“O Ar’Libah deve ter a aprovação de todas as tribos! Esta é a Lei! O Guardião Amash diz que suas palavras são sábias, rei de Neondor. Porém, o que prevalece é a Lei! Sem ela voltaríamos a selvageria dos tempos pagãos! Tudo ou nada, assim é a Lei!”
Claramente os ânimos começaram a se exaltar. Scedric esperava uma reunião difícil, mas aquilo estava completamente fora de seus planos. Todos falavam ao mesmo tempo, gritavam. Os sacerdotes mais jovens começaram a entoar antigos hinos. Os Guardiões tentavam se fazer ouvir, mas era tudo inútil. Agora Scedric entendia o porque era proibido andar armado em Karlaeyh. Armas numa situação como aquela seria uma carnificina. Finalmente, Eoric pegou sua trompa e a tocou o mais forte e mais alto que pode. Aos poucos o som poderoso da trompa foi conquistando a algazarra, até que todos tivessem se calado. O rei de Schedullus quando parou estava vermelho e sem ar. Seus olhar penetrante percorria o salão como em desafio. Seu rosto estava suado devido ao esforço repetido de tocar o instrumento. Ele tomou um generoso gole de vinho e limpou os grandes bigodes enquanto tomava fôlego.
“Nós somos os reis das doze tribos maiores, da linhagem dos Patriarcas. Acalmem-se! Se o rei de Neondor não é aprovado por nós, que outro se apresente para o Trono!”
Um burburinho percorreu o salão. Ninguém tinha coragem de se opor a Manasch, que permanecia de pé aguardando. Eonric estava de pé com as mãos apoiadas sobre a mesa, enquanto olhava ao redor esperando que alguém se apresentasse. Porém ninguém se manifestou.
Scedric havia pensado consigo que talvez Merari pudesse ser um bom Alto-Rei. Era corajoso e honrado, logo, por quê não? Ele cochichou com o rei gadharida.
“Lorde Merari, por que não se oferece ao trono? Eu apoiaria o senhor, e sei que meu pai também gostaria disso.”
Ele sorriu e respondeu ao jovem – “Ah, jovem príncipe! Fico muito feliz em saber de sua aprovação e de seu pai, e não duvido disso. Mas eu não fui feito para este trono. Não suportaria tantos cerimoniais e a rotina de Karlaeyh. Me sinto sufocado aqui, muita gente junta em um mesmo lugar depois de um tempo passa a cheirar mal. Meu lugar é nas praias do sul, em mar aberto. Lá é o único trono que desejo.”
Enquanto isso, Eonric continuava em sua espera. Esvaziou seu copo de vinho, e o bateu com força sobre a mesa. Estufou o peito, mantendo um olhar impassível, mas ainda em silêncio.
“Ao que parece ninguém mais se acha digno da Coroa de Rubi, meu caro senhor de Schedullus.” – disse Manasch com sarcasmo.
“Pois bem! Eu, Eonric ca’Elmaesh, rei de Schedullus me apresento frente ao Libahmott para receber a Coroa de Rubi para manter a paz das ilhas assim como diz a Lei.”
Esta nova declaração provocou uma nova comoção entre os presentes, e a sutil alteração das palavras na fórmula da declaração de Eonric para o trono não passaram despercebidas por Scedric e por Merari, que trocaram olhares; e muito menos por Manasch, que olhava Eonric fixamente.
“Eonric, filho de Elmaesch dos schedullusidas! Eu reconheço sua linhagem patriarcal e digo ser digno ao Trono do Dragão! Quem dentre vós apóia o nome de Eonric de Schedullus?” – proferiu o Guardião da Lei.
Após um certo momento de hesitação, afinal todos foram pegos de surpresa, alguns começaram a se levantar. Ao todo seis se levantaram. O primeiro foi o rei Merari, seguido por Scedric, Enferhd, Baras, Urish de Cenred, e Theodric de Edran.
“O Ar’Libah deve ter a aprovação de todas as tribos! Esta é a Lei! Nem mais nem menos!” – disse o Guardião da Lei a plenos pulmões.
O Guardião da Lei se preparava para novamente repetir a pergunta sobre quem desejava subir ao Trono do Dragão, quando Manasch o interrompeu.
“Com licença, honorável Guardião! Eu peço a palavra.”
“Pronuncie-se Manasch de Neondor.”
“Creio que um grave erro está sendo cometido aqui, e como um defensor da Lei, não posso permitir que este erro continue.”
Todos se entre olharam confusos.
“Acreditava estar aqui fazendo parte do Libahmott, de uma assembléia de reis!”
“Mas é o que está ocorrendo, nobre rei.” – disse o sumo-sacerdote sem entender.
“O senhor se engana Guardião Amash.” – e se virou, caminhando em torno do fogo e falando alto e para todos os presentes – “A Lei está sendo desrespeitada! Por favor nos esclareça veneráveis Guardiões da Lei. É possível alguém que não seja um libah, participar de um Conclave de Reis?” – e agora ele olhava diretamente para os sacerdotes, de forma desafiadora.
Todos se voltaram para o sumo-sacedote Amash, de pé e com semblante duvidoso, tentando descobrir onde Manasch queria chegar. Por fim, sentindo que estava sendo envolvido em algum tipo de trama, ergueu a cabeça e com uma grava impostação de voz se dirigiu ao rei neondorida.
“Rei Manasch, seja claro em suas observações. Esta cerimônia se arrasta por demais e sem conclusão alguma. Por favor, diga o que quiser dizer de uma vez.”
“Ora, será que apenas eu tenho visão para o que está logo a frente de todos?” – disse com ar de estupefação – “Um garoto que não é rei senta-se à nossa mesa, bebe de nosso vinho e acredita ter autoridade e uma voz ativa num momento de decisão tão importante como este.”
Todos começaram a conversar entre si, sem compreender exatamente o que ocorria.
“Manasch de Neondor, quem é o garoto que se passa por rei, como diz?”
“Ali, venerável Guardião!” – e apontou para Scedric, que se assustou ao ser apontado como o pivô de todo esse discurso – “Talvez ele não soubesse que aqui é uma reunião de reis, de homens, e não um jogo de rapazes.” – e com este último comentário Manasch arrancou alguns risos dos presentes.
Para Scedric era claro o que rei do norte tentava fazer. Uma vez que seus planos de obter facilmente a coroa haviam falhado, e na iminência de outro ocupar o trono, ele tentava invalidar aquele conclave para poder aplicar algum outro estratagema. Sentiu um misto de raiva e humilhação por ter sido exposto desta maneira. Realmente, entre os presentes, com exceção do filho de Merari, ele era o mais novo dentre eles. Havia completado dezessete anos no inverno passado. Mas mesmo assim ele já era o responsável pelas terras de seu pai, e até mesmo liderou uma pequena expedição contra invasores do povo de Evi, que tentaram saquear a caravana de bois caahridas que rumava ao mercado principal de Airan. Além disso, quando seu próprio pai havia se tornado rei, era dois anos mais novo do que ele agora. Scedric limpou sua mente, e se recordou da imagem da constelação que havia visto ao cair da noite. Recobrou o controle de suas emoções e se levantou, ainda em meio aos risos.
Com uma voz vacilante ele começou a falar. A principio ninguém lhe deu ouvidos, estavam conversando entre si e comentando o fato. Mas aos poucos ele foi ganhando confiança, e uma vez que a insegurança inicial de ter de falar em público passou, pode falar alto o suficiente para que sua voz se sobressaísse às demais.
“Eu sou Scedric ca’Elesch, da tribo de Airan. E realmente, como o nobre rei Manasch disse, eu não sou um rei.” – vozes recebiam com certo espanto tal confirmação e alguns risos voltaram a ser ouvidos, mas rapidamente se calaram – “Sim, não sou um libah, ainda! Mas um dia serei, pois sou um ca’libah, sou um príncipe por direito. Sou Scedric ca’Elesch ca’Eamarh, da linhagem do patriarca Airan, que derrotou o grande Amran, o leão vermelho das florestas de Ber’Gorn e que depois elevou o corpo da fera às estrelas onde esta noite mesmo podemos vê-lo pairando sob o céu de Enea. Meu pai é um homem de saúde debilitada, e há muito que incumbiu a mim, seu filho mais velho vivo e herdeiro, como responsável por fazer valer sua vontade. Ele mesmo me incumbiu de vir até a Grande Cidade e representa-lo no Libahmott. E como prova que sou o que estou dizendo, aqui está o anel de meu pai, o anel da casa de Airan.” – e ao dizer isso, ergueu o punho cerrado, de forma que todos podiam ver o grande anel dourado que ele portava.
Ao terminar, Scedric se sentia como se estivesse muito mais leve. Parecia que tinha gastado todo o ar de seu corpo para dizer tudo aquilo, estava até mesmo um pouco ofegante. Para seu espanto, ninguém se pronunciou. Todos estavam espantados, olhando para ele, ruminando tudo o que tinha acabado de despejar sobre eles. Manasch até mesmo voltou ao seu lugar e se sentou, fitando-o.
O príncipe finalmente se sentou, tomando um gole do copo a sua frente. De repente sentiu uma mão forte sobre seu ombro. Ao se virar, viu o semblante sorridente de Hama.
“Falou bem, meu senhor! Falou bem!”.
Logo o silêncio foi quebrado. Vozes se ergueram, alegando que isso não provava absolutamente nada. Diziam que o príncipe poderia muito bem ter roubado o anel de seu pai e estar se apresentando no Conclave como uma farsa. Outros alegavam que ainda que fosse verdade, ele de qualquer maneira, não era rei e que Airan não deveria ter voz naquela assembléia uma vez que seu rei não estava presente.
O Guardião da Lei Amash, que permanecia em silêncio, tomou a palavra pedindo ordem no salão. Assim que teve oportunidade, caminhou até a extremidade do tablado. Com as palmas das mãos erguidas e viradas para o salão, e ele se pronunciou.
“Scedric, filho de Elesch dos airanidas, eu reconheço sua linhagem patriarcal e lamento por seu nobre pai. Entretanto, ainda assim este é um concílio de reis, e não posso ignorar a Lei. Portanto, eu pergunto a todos: quem aqui dentre vós, meus honoráveis reis, assegura que o que o jovem príncipe de Airan diz é a verdade, assegurando sua permanência aqui neste Conclave?”
Scedric olhava para os lados, temendo que ninguém se manifestasse. Se isso viesse a ocorrer, teria de voltar para sua terra natal com o sentimento de culpa por ter falhado com seu pai, e a vergonha de ter sido renegado perante todos os reis das ilhas. Mas neste momento, Merari se ergueu e pôs sua mão sobre o ombro do príncipe.
“Eu, Merari de Gadhar, asseguro que o que príncipe Scedric de Airan diz é a mais pura verdade. Gadhar e Airan são aliados há décadas e conheço o velho rei Elesch.”
Imediatamente, no extremo da mesa Eonric também se ergueu.
“Eu também asseguro as palavras do ca’libah airanida!”
“Pois bem, que assim seja!” – disse o Guardião da Lei – “Você, Scedric de Airan, filho do rei Elesch, tem sua voz garantida em nosso Conclave, representando a vontade de seu pai e sua tribo. Mas, uma vez que ainda não é verdadeiramente um libah, não poderá se apresentar como um legítimo candidato ao Trono do Dragão. Essa é a Lei!”
Scedric se sentia satisfeito. Primeiramente por ter sido reconhecido como um legítimo representante de seu povo, e em segundo lugar, por saber que poderia contar com o apoio de dois aliados em Karlaeyh.
Neste momento, um dos jovens sacerdotes se aproximou de Amash e lhe informou algo ao ouvido. O Guardião da Lei assentiu com a cabeça.
“Nobres reis de Asher. Esta reunião já se estendeu por demais por essa noite. Infelizmente ainda não temos nosso novo Alto-Rei. Além disso, o honorável Guardião Honferd está cansado, e precisa repousar devido a sua idade avançada e sua frágil saúde.” – ao fundo era possível ouvir as tosses do ancião – “Assim, dou por encerrado por hoje este Conclave. Daqui a duas noites depois de hoje deveremos nos encontrar aqui novamente, e finalmente termos um novo Alto-Rei antes dos últimos ritos fúnebres do falecido Ar’libah Feadel de Hor. Schaddam alaifar!” – e todos repetiram a saudação – “Schaddam alaifar!” – e começaram a se levantar para partir.
Hama estava muito empolgado. Assim que pode, segurou seu senhor pelos ombros o sorriu.
“Falou bem jovem senhor! Mostrou a todos eles quem é o futuro rei de Airan! Principalmente àquele porco nortista e seu filho pervertido!” – e continuava a sorrir.
A alegria de Hama só foi interrompida com a aproximação de Merari. O rei se aproximou de Scedric com um sorriso singelo e lhe estendendo a mão.
“Meus parabéns jovem príncipe! Saiu-se muito bem frente a esses lobos do Conclave. Você não pode demonstrar medo, eles sentem de longe o cheiro. Mas você disfarçou bem” – e deu uma grande risada.
Eonric também se aproximou. Com uma expressão séria também vinha cumprimentar Scedric.
“Me surpreendeu meu jovem. Havia algo em você que me fez lembrar de seu avô. Eu o conheci quando tinha mais ou menos sua idade. Ele não falava muito, mas quando o fazia sempre nos surpreendia.”
Enquanto conversavam, iam se dirigindo a saída do salão. Estavam já do lado de fora em frente a Libahseldes, quando se aproximou Manasch e seu filho.
“Nobre rei Merari, nobre rei Eonric, jovem príncipe…” – Manasch parecia sempre escolher cuidadosamente suas palavras, de forma que sempre ele estava dizendo muito mais do que as palavras significavam.
“Falou muito bem esta noite rapaz. Demonstrou coragem, e isso eu prezo num homem. Mas cuidado, a coragem sem prudência pode nos levar a caminhos sem volta.”
Manasch foi interrompido subitamente por Eonric, que notava a tensão que fora criada.
“Nobre rei Manasch, vai estar presente mais tarde no banquete?”
“É possível, é possível. Mas não garanto, esta reunião de hoje foi um tanto desgastante. Talvez eu acabe me recolhendo mais cedo. Mas será um prazer partilhar de companhias tão nobres quanto estas que eu tenho a minha frente. E antes que eu me esqueça, eu lamento muito por seu pai príncipe. Não esperava que ele fosse para junto de seus ancestrais tão cedo. É uma lástima.”
Scedric sentiu a provocação de Manasch como uma agulha quente em sua carne, mas tentou não demonstra-la.
“Nobre rei, meu grande pai está apenas debilitado devido a uma fraqueza momentânea. Nada mais que isso.” – ele sabia que mentia. No fundo, tinha consciência que seu pai estava cada vez mais próximo de rumar para a morada de seus antepassados na Cidade Prateada.
“Mas é claro, mas claro, jovem príncipe. Se é o que diz. Mas devo retornar a meus alojamentos agora. Nobres reis, jovem príncipe, com sua licença.” – realizou uma mesura e, junto com seu filho, desceu os degraus de pedra da construção, onde ao final servos os aguardavam com cavalos para leva-los embora.
Nitidamente Manasch enfatizava a juventude de Scedric numa postura de menospreza-lo, trata-lo como um menino entre reis. Hama olhava furioso para o pequeno grupo de Neondor que partia.
“Porco do norte! Açougueiro! Ele não vai descansar, vai é realizar sua feitiçaria, mordohg! É isso que vai fazer, esse filho de bruxa!” – Hama cuspiu no chão e bateu na madeira da grande coluna do salão real, para se proteger do mal.
Merari que observava o servo com curiosidade, após o acesso de raiva de Hama, convidou Eonric e Scedric para acompanha-lo até seus alojamentos para tomar um pouco de vinho gadharida, comer de uma das iguarias que trouxe de sua terra natal e conversarem um pouco longe das formalidades do Conclave. Apesar de tamanha gentileza, Scedric sabia que nesta pequena reunião iriam falar muito mais do que apenas sobre os vinhos e peixes defumados de Gadhar. Scedric sentiu o cheiro de umidade no ar. Olhou para cima e viu que as estrelas haviam desaparecido. O céu estava carregado de nuvens, e o vento começou a soprar forte. Scedric tinha certeza que havia se enganado em relação a sua previsão inicial da noite. Uma tempestade se aproximava, e não era apenas vento e chuva que ela trazia.
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