Eu sou Arwan Gwyynhyr Orniah. Quando jovem me chamavam de Arwan “a lebre”, por eu ser pequeno e rápido demais para que alguém conseguisse me pegar. Em minha infância, nunca fui conhecido por ser uma criança comportada. Já mais crescido, na época em que minha primeira barba cresceu, fui chamado de Arwan “das nove vidas”, por razões que futuramente irão se esclarecer por si mesmas. Hoje em dia meus cabelos estão grisalhos, minhas mãos doem e minha visão é turva, principalmente ao por do sol. Já não corro mais como uma lebre e com certeza gastei oito de minhas vidas, comprovadas por minhas cicatrizes, me restando aproveitar esta que ainda insisto não abandonar. Agora as pessoas me chamam de lorde Arwan, guardião das fronteiras ocidentais, barão de Haleag. São títulos que ganhei por merecimento, mas não me atenho tanto a eles quanto minha nova esposa gostaria. Minha terceira esposa. Ela é jovem, muito mais jovem que eu, por isso ainda se encanta com coisas como essa. Há muito tempo que não sou chamado simplesmente de Arwan. A última vez que isso acontceu, minha atual esposa nem pensava em nascer, provavelmente seus pais nem se conheciam ainda. Por outro lado, tenho o privilégio de apenas uns poucos, um pequeno grupo de uns seis ou sete, me chamarem de vovô.
Nasci nas antigas terras do norte do que antes era conhecido como Edenia, próximo às montanhas de Dunmotria, numa aldeia que não existe mais hoje em dia. Em meu sangue corre, e me orgulho disso, o mesmo sangue dos homens que eram senhores das florestas que cobriam esta parte do mundo. Entre meus ancestrais estão aqueles que lutaram e pereceram contra os invasores de Leamnar, que presenciaram pouco à pouco as grandes árvores serem derrubadas para queimarem na máquina de guerra do império leamnare. Também digo com orgulho que possuo sangue ealdorida; até onde sei, da linhagem do próprio Aer-Halga. Séculos atrás ele liderou o povo de Ealdor, vindos de terras distantes, e ajudou Edenia a derrotar os homens-feras que infestavam nossas florestas. Existem muitas canções sobre isso, algumas melhores que outras, algumas mais fantasiosas que outras. Mas fato é que esta é uma bela história, que mereceria ser contada em prosa além de versos, mas não agora. Se ainda me for permitido, talvez eu mesmo o faça um dia.
Estou velho e poucas coisas me agradam. Meus filhos dizem que me tornei razinza e irriquieto com o passar dos anos. Eu lhes dou razão, mas não pelo mesmo motivo que acreditam. Não é a velhice que nos torna mau-humorados e irritadiços, mas sim a monotonia, o tédio de saber que nada mais vai surpreendê-lo como antes. Ao se envelhecer, chega um momento que você percebe que já viveu tantas coisas que chega a conclusão que a vida acaba por se repetir. Geração após geração o ciclo se completa, e é quando o homem toma consciência que a vida não lhe reserva mais nenhum grande segredo. É por isso que o jovem cassoa do velho quando este quer lhe dar conselhos: o jovem acredita que nada é previsível o bastante para ele, enquanto o velho já sabe tudo o que pode acontecer. Assim como muitas coisas em nossas vidas, a primeira vez que se entra num campo de batalha você não sabe para onde ir ou o que fazer direito, onde golpear, quem golpear, de que forma, de onde pode vir um ataque para se defender. Mas com o tempo, chega-se ao ponto de que você golpeia seu inimigo mesmo antes dele mesmo saber o que ele ia fazer, pois você já tinha visto tudo antes. De qualquer forma, muitos se resignam a continuar suas vidas e esperar o dia de rumarem para as Terras Imortais em paz. Entretanto, homens como eu não se dobram a tal condição tão facilmente.
Infelizmente, apesar de meu espírito não se conformar, meu corpo já não é o mesmo. Mas creio que com minha idade, o mais importante mesmo é a integridade de nossas mentes, pois mesmo sem a ajuda de nossas mãos, nossos braços e pernas, é possível tentar viver novamente as surpresas e emoções da juventude. É por isso que decidi, como a melhor forma para isso, registrar nestas folhas o que ainda me lembro que vivi. E sobre o quê escrever? Poderia falar sobre os tempo de quando era criança e brincava com meu cachorro caçando pardais na floresta, ou de quando aprendi a andar a cavalo com meu tio, ou quando meu primeiro filho nasceu de minha primeira esposa, de meu primeiro amor… Mas não são esses os tempos que quero lembrar. Esses também foram tempos felizes e gosto de recordá-los, mas não são os que procuro neste momento. Quero me lembrar e lhes contar sobre tempos muito mais gloriosos, tempos de descobertas, de perigos, guerras, tristezas, mortes e alegrias. Tempos que me tornaram o que sou hoje. Mas o farei não da forma como as canções dizem que foi, cheias de bajulações e invencionisses. Os poetas que compõe tais versos não sabem do que estão falando. Eles apenas repetem as fofocas que ouviram sabe-se lá de quem. Não será assim que farei! Tentarei lhes contar da forma como realmente aconteceu, porque eu estava lá! Muitos não acreditam mais em minhas histórias ao ver um velho de cabeça prateada, resmungando que estava em tais lugares e que presenciou o que os poetas cantam no dedilhar suas harpas, tentando corrigí-los e chamando-os de mentirosos. Não por acaso, tais poetas não aparecem mais em minha casa.
As pessoas não querem ouvir a verdade. Fala-se muito sobre a verdade, de como devemos defendê-la e mantê-la acima de tudo. Nossos sacerdotes estão constantemente pregando em prol dela. Mas na realidade, ninguém gosta da verdade. Ela sempre acaba distorcida, maquiada, corrompida. Certa vez, quando ainda garoto, conversei exatamente sobre este mesmo assunto com um amigo muito sábio. Vocês ouvirão falar dele em minha história. Ao fim da conversa ele me disse, com seu típico ar sombrio e num tom de voz profundo: “É assim, Arwan, que a verdade se torna história, a história em lenda e esta em mito.” Na época não entendi o que ele queria dizer, nem mesmo sabia o que significava “mito”. Demorou muito tempo para que eu compreense suas palavras.
É por isso que, por mais que desagrade a muitos, não mentirei para vocês. Escreverei exatamente o que presenciei e como me lembro que aconteceu tudo naqueles tempos, o que de certa forma não assegura que seja a verdade absoluta. Afinal, as vezes o que lembramos pode ser apenas um reflexo melhorado de algo que gostaríamos que tivesse sido daquela forma, mas não foi. O que garante a integridade de minhas palavras, é que não estarei falando de estranhos. Me obrigo a ser o mais fiel possível à verdade não por mim, mas pela memória de meus amigos que viveram comigo naqueles anos de outrora e com os quais espero me encontrar quando meus dias sobre este mundo findarem.
Assim, permita-me lhes contar sobre como o destino me tirou das florestas do norte e me tornou um grande senhor das armas na capital do reino. Permita-lhe lhes contar sobre como a bandeira do grifo veio a tremular sobre as muralhas de Saelinor e sobre o nosso primeiro rei. Permita-me lhes contar sobre o nascimento de Aerland.
Continua…









