PRÓLOGO
O sol havia nascido há pelo menos duas horas. O canto dos pássaros enchia a floresta dos mais diversos sons, principalmente naquele dia quente de primavera. O céu estava absolutamente azul, sem uma nuvem sequer. Numa clareira próxima à estrada que levava ao norte do reino, duas figuras preparavam-se para levantar acampamento. Um era jovem, mas já não era mais um garoto. Não devia ter visto mais do que dezessete ou dezoito invernos. Porém, os cabelos louros e encaracolados e as sardas davam uma aparência mais infantil a ele. O outro, por sua vez, era bem mais velho. Em seus cabelos escuros e sua barba rala já despontavam os sinais grisalhos de uma vida com mais experiências do que seu jovem amigo.
Enquanto o rapaz encobria os sinais da fogueira da noite anterior, o veterano afiava sua grande faca, quase do tamanho de uma pequena espada. Seu cabo era branco como marfim e possuía uma pedra vermelha como sangue em sua base. Pela forma como a lâmina estava gasta, devia ter sido afiada por muitos donos e por muitas gerações. Armas como aquela não se achava em qualquer lugar. Pelo cuidado que tinha com ela, provavelmente era uma herança de família.
Arrumaram os cavalos e retomaram sua viagem rumo a Huncginton. Estavam com pressa e não pretendiam realizar mais nenhuma parada até chegarem à cidadela. Há quase quatro dias que rumavam para lá, sendo que já estavam atrasados em um dia pelo menos. O que lhes realmente preocupava não era exatamente o atraso, mas sim a possibilidade de seus senhores se irritarem e não lhes recompensarem como haviam prometido.
“Não seria melhor cortarmos caminho por Erdinghon?” – perguntou Luscius, pensativo, ao seu companheiro.
“De forma alguma! Além de não conhecermos muito bem essa região, corremos o risco de encontrarmos com os rebeldes ainda leais ao barão ou coisa ainda pior!” – disse Alvric.
“Bem, mas fato é que pouparíamos meio dia de viagem. Além do mais, o que seria pior do que encontrarmos os homens do barão aqui, no meio do nada?”
“Como assim? Além dos perigos de costume que nos cercam, me refiro àqueles que habitam as sombras!” – falou Alvric num tom mais baixo de voz, como se temesse que alguém os ouvisse.
“Novamente você e essas suas bobagens! Desde os tempos dos reis Adwald e Elvric que não se ouve falar de um scedugeng nessas terras. Ou seja, já faz mais de duzentos anos que o último desses malditos morreu e você ainda tem medo que a qualquer momento um deles pule de trás de uma árvore!” – respondeu Luscius com irritação como sempre fazia quando o amigo tocava nesse assunto. Enquanto isso, ao ouvir o amigo pronunciar o nome das criaturas amaldiçoadas, o jovem Alvric fez um sinal de proteção sobre o peito e cuspiu no chão como forma de espantar o mal.
Continuaram a viagem em silêncio. Após tanto tempo juntos, inevitavelmente chegava a hora que o suprimento de assuntos se acabava. Ao meio dia o sol era implacável e o calor quase insuportável, mas por sorte eles se depararam com um riacho onde puderam se refrescar e encher os seus cantis. Esta foi a única parada que fizeram naquele dia. Mesmo quando sentiram fome decidiram comer o pão seco e duro, que haviam comprado no último vilarejo que passaram antes de pegarem a estrada, em cima dos cavalos mesmo. Não podiam se atrasar mais, de forma alguma.
O sol começava a se esconder no oeste quando avistaram Huncginton. Era uma cidadela humilde, simples, sem grandes atrativos como as cidades do sul. Apesar de ser uma cidade antiga, parte de sua muralha ainda era feita de paliçadas. A maioria das cidades mais antigas do reino tinham suas muralhas feitas inteiramente de pedras. Entretanto, era comum algumas ainda manterem a estrutura de paliçadas, principalmente as cidades do norte.
Assim que entraram na cidade, buscaram pela taverna local para poderem descansar um pouco da viagem. Não foi muito difícil encontra-la. Da mesma forma que a cidade, ela também era muito simples. Deixaram suas montarias presas à entrada da taverna, levando consigo as bolsas onde carregavam seus principais pertences. Havia muito pouco movimento na rua naquele começo de noite. Os dois já tinham passado por diversas cidades, vilas e aldeias do reino todo; entretanto, nenhuma parecia estar tão desabitada quanto Huncginton. Após se assegurarem que seus cavalos estavam bem presos, adentraram a taverna. Era um lugar pequeno, com quatro mesas e o balcão. Ao entrarem as tábuas do assoalho rangiam levemente. O cheiro de bebida e lenha queimando era característico e se misturavam a um cheiro estranho e desagradável que vinha das poucas velas que iluminavam o ambiente. Naquele momento havia apenas três homens numa das mesas do fundo. Aparentavam estar bêbados, pois cantavam músicas muito antigas e riam de forma exagerada ao final de cada uma delas. Luscius e Alvric decidiram sentar numa das mesas mais distantes do trio. Após comer e beber, Luscius e Alvric descansavam, pensativos, sem se falarem. Mas então, Luscius rompeu o silêncio e se dirigiu ao seu companheiro:
“Pois bem mestre Alvric, creio que é hora de ir buscar informações”. – dizia Luscius enquanto tomava mais um gole de cerveja.
“Eu de novo?” – falou Alvric com ar de indignação – “As últimas duas vezes fui eu que tive de fazer isso! Além do mais, é você que sabe melhor sobre a história da menina desaparecida. Você conversou com o ferreiro de Bayling sobre o ocorrido e não eu! Mesmo porque, eu nem sei a história toda!”
“Tudo bem, tudo bem! Eu vou lá, então!” – Luscius resmungou. Levantou-se e foi até o balcão onde se encontrava o taverneiro. Este prontamente se aproximou.
“Pois não, quer mais alguma coisa? Mais cerveja?” – perguntou o taverneiro.
“Sim, por favor. Mas na verdade gostaria de uma informação”.– disse Luscius.
“Se eu puder ajuda-lo!” – respondeu o taverneiro enquanto enchia mais uma caneca de cerveja.
“Por acaso você ouviu falar sobre a história de uma menina que desapareceu aqui nos arredores da cidade?”
“Aqui em Huncginton?” – perguntou o taverneiro alisando o longo bigode.
“Sim, em Bayling me contaram que uma menina, filha de um mercador que costuma passar por aqui, teria desaparecido próximo às muralhas da cidade”.
“Ah, sim! É verdade! Foi alguns meses atrás, bem no final do inverno. Devido a neve, decidiram permanecer com a caravana aqui na cidade. Foi quando a menina desapareceu. Ninguém soube exatamente o que aconteceu. Eu não posso lhe afirmar com certeza, mas dizem por ai que teria sido obra dos malditos!” – dizia o taverneiro com um olhar severo e fixo no rosto de Luscius.
“Como assim? De quem você está falando?”
“Ora, dos malditos, o povo das sombras!” – disse o taverneiro de forma quase inaudível.
“Os scedugengas?” – disse Luscius espantado. Imediatamente o taverneiro fez sinal para que ele se calasse. De onde estava, sentado à mesa, Alvric imediatamente ergueu a cabeça ao ouvir o que o amigo tinha dito. Rapidamente fez um sinal de proteção sobre a face e cuspiu no chão como forma de espantar a má-sorte que aquele nome trazia. Até mesmo um dos homens que estava na outra mesa virou-se também ao ouvir as palavras de Luscius, mas logo voltou a cantoria de seus amigos.
“Por favor, não diga esse nome em voz alta aqui! Sei que vocês do sul não acreditam tanto nessas coisas, mas aqui nas fronteiras do norte coisas estranhas acontecem durante a noite. Principalmente nos últimos anos. Dizem que eles, os scedugengas, estão voltando para as nossas matas, atacando viajantes e roubando crianças durante a noite” – ao falar isso, o taverneiro bateu três vezes na madeira do balcão para espantar o mau agouro.
“Vocês estão tendo problemas com eles?” – perguntou Luscius, mais cauteloso com suas palavras.
“Ah, sim! Começou a uns cinco anos atrás. Primeiro foram as crianças dos aldeões que moram fora das muralhas. Elas começaram a desaparecer. Pensamos que fossem lobos. Mas ai, de repente, chegou uma menina, no meio da noite, batendo e gritando no portão da cidade. Eu não a vi, mas dizem que ela estava muito assustada e machucada. Falava que sua família tinha sido atacada durante aquela noite e que ela tinha conseguido escapar. A pobrezinha não durou muito. Tinha muita febre e morreu dois dias depois.”
Luscius não piscava, estava completamente compenetrado na narrativa do taverneiro. Alvric, que não conseguiu conter a curiosidade, levantou-se e se esgueirando de forma felina, se juntou ao amigo para também ouvir a história.
“Pois bem” – continuou o taverneiro – “No dia seguinte, um grupo de homens da cidade se reuniu e foi até próximo a floresta para ver o que realmente tinha acontecido. Eles encontraram a casa da família da menina, e também algo que eles não queriam ter encontrado.”
“O que foi?” – Alvric perguntou, ansioso.
O taverneiro olhou espantado para o jovem recém-chegado, pois só agora o tinha notado ali – “Morte! O casebre inteiro estava manchado de sangue. E o pior é que não foi só isso. Dizem que eles encontraram a família, os seus corpos. Eles tinham sido dilacerados. Dizem que eles foram devorados!” – concluiu e permaneceu alguns instantes em silencio, olhando para os dois amigos. O bruxulear da chama da vela sobre o balcão criava sombras fantasmagóricas no rosto do taverneiro.
Nem Luscius ou Alvric se moveram ou disseram coisa alguma. Alvric agarrava o pequeno amuleto que carregava pendurado ao pescoço como se sua vida dependesse disso. Luscius se recompôs e se dirigiu ao taverneiro: “Mas, há quanto tempo foi isso?”
O taverneiro ficou pensativo – “Creio que há uns dois ou três anos, talvez. Acho que foi há uns dois anos, durante o verão. Foi isso mesmo, no verão! Mesmo porque, alguns meses depois, já quase no inverno, ele chegou.”
Os dois companheiros se entreolharam, confusos – “Quem chegou?” – disse Luscius.
O taverneiro entregou mais uma caneca de cerveja para Alvric, secou as mãos na barra da camisa e se apoiou no balcão sobre o cotovelo – “Aquele a quem chamam de o Caçador.”
“O Caçador?” – murmurou Alvric, e novamente se apegou a seu amuleto.
“Sim, o Caçador! Vocês ainda não ouviram nenhuma das histórias dele por ai?” – o taverneiro parecia indignado com o fato dos dois desconhecerem algo que para ele era mais que notório. Luscius simplesmente sinalizou com a cabeça que desconhecia qualquer tipo de história sobre o tal caçador, enquanto o jovem Alvric se limitava a manter os olhos arregalados e a boca cheia de cerveja.
“Pois bem, vou lhes contar. Ele chegou aqui no começo do inverno daquele ano. Foi visto uma ou duas vezes por aqui, nas redondezas eu quero dizer. Ao que parece ele prefere evitar as cidades. Os poucos que o viram, disseram que ele é uma figura sombria. Só viaja durante a noite num grande cavalo negro e usando um grande manto escuro. Nunca ninguém conseguiu ver seu rosto. Dizem também que ele não come, não bebe e que não precisa dormir. Não sei qual é a verdade, mas existem muitas histórias sobre quem ele é. Alguns dizem que ele é apenas um mercenário, que realiza pequenos serviços para quem lhe pagar mais. O que não seria nada espantoso hoje em dia por essas terras. Mas existem outros que dizem que na verdade ele não é deste mundo, que é um ser das sombras, talvez um fantasma em busca de vingança.” – Alvric tomou um gole bem grande de sua caneca enquanto esfregava freneticamente o amuleto – “Mas a mais famosa das histórias é a que diz que ele era um nobre cavaleiro que caiu em desgraça. A história que contam é a de que ele teria cometido um crime horrível e que ao morrer os Santos Imortais o condenaram a vagar pelo mundo sem descanso, até que ele se redimisse frente aos olhos Deles. Só então seu espírito teria a paz e poderia se juntar aos seus ancentrais”.
Alvric estava congelado de pavor. Simplesmente não conseguia se mexer. Parecia uma estátua. Luscius, que não era tão impressionável quanto seu jovem amigo, ouviu o taverneiro com atenção e intrigado lhe perguntou mais sobre a tal figura sombria – “Mas a chegada desse tal caçador teve alguma relação com o que aconteceu com a família da menina?”.
“Sim, sim! Bem, depois do que aconteceu com a família da menina, outras pessoas também desapareceram. Alguns dos aldeões buscaram abrigo dentro da cidade. Outros simplesmente foram embora. Logo não poderia dizer com certeza quantos realmente teriam desaparecido e quantos foram embora daqui sem avisar a ninguém. Mas quando o Caçador chegou, as coisas começaram a mudar. Os ataques dos malditos diminuíram. Um velho lenhador me contou que numa certa manhã, assim que chegou ao bosque, encontrou o corpo de dois malditos no chão sem as cabeças. Ele disse que procurou por elas, mas não encontrou.”
“Será que o Caçador as levou? Como, talvez, um troféu?” – disse Alvric temeroso. O taverneiro não disse nada, apenas olhou para ele e lentamente acenou com a cabeça de forma positiva.
“Entretanto, assim que acabou o inverno não se ouviu mais falar sobre ele. Mas ele voltou mais uma vez.”
“Já fazia uns três dias que a filha do mercador havia desaparecido. Seu pai estava desesperado e prometeu pagar o equivalente do peso de sua filha em ouro para quem a trouxesse de volta. Na quinta noite, ele apareceu. Um dos homens que trabalham na caravana me contou que já era quase de manhã quando surgiu aquela figura sombria. Ele acordou com o relinchar do cavalo. Ele saiu de sua carroça e lá estava ele. Era um vulto negro, enorme, sobre um cavalo tão escuro quanto a noite. Assim que se aproximou, o tal cavaleiro ordenou que trouxessem até ali o seu mestre. Imediatamente foram chamá-lo. Logo que o mercador chegou, o Caçador ergueu parte de seu manto e lá estava a menina junto a ele sentada na sela.”
“E ela estava viva?” – perguntou Luscius, nitidamente envolvido com a historia.
“Sim, claro! Ele entregou a menina para o pai, que imediatamente mandou buscar o ouro que ele tinha prometido como recompensa. Mas ao invés de levar seu prêmio merecido, dizem que Caçador apenas pegou o suficiente que coubesse em sua mão e sem falar mais nada foi embora.”
“Quanto tempo faz que isso aconteceu?” – disse Luscius.
“Como disse, foi no final no inverno. Talvez uns três meses atrás. Talvez menos até.”
Após a narrativa a respeito do tal Caçador, eles mudaram de assunto e começaram a conversar sobre outras coisas mais amenas. Entre elas, perguntaram onde poderiam passar a noite. O taverneiro lhes informou que devido a feira da primavera, a estalagem da cidade estava completamente lotada. Porém, ele lhes disse que se quisessem, poderia deixa-los ficar num celeiro próximo dali, ao menos para passar aquela noite. Sem outra alternativa, aceitaram a oferta.
Tiveram de aguardar até o taverneiro mandar o trio de bêbados embora e fechar a taverna. O celeiro realmente não era muito longe dali. Assim que chegaram, pagaram ao taverneiro pela noite, tiraram as celas e os arreios dos cavalos e foram se acomodar na parte superior do celeiro. Amontoaram o que havia de feno ali, jogaram suas coisas por cima e já estavam deitados quando Alvric, inquieto, disse:
“Luscius? Mestre Luscius? Já está dormindo?”
“Estava tentando! O que foi?” – respondeu Luscius com certa irritação.
“Estava pensando naquilo que o taverneiro nos contou, sobre o Caçador.”
Luscius não respondeu nada, apenas resmungou alguma coisa sem sentido.
“Estava pensando: será que é ele mesmo?” – questionava Alvric.
“Com certeza, Alvric. O que o taverneiro nos contou é igual a todas as outras histórias que já ouvimos. Apenas os exageros mudam de uma cidade para outra, mas é sempre o mesmo: o cavalo negro, o manto escuro, andando sempre à noite e caçando ladrões de estrada e criaturas das sombras.” – disse Luscius de modo enfadonho.
“Sim, é verdade. Mas e a história dele ser amaldiçoado? Será mesmo verdade que ele foi condenado a vagar sem descanso? E se ele nos encontrar?” – dizia Alvric desesperado.
“Se ele nos encontrar, vai nos poupar trabalho e poderemos voltar mais cedo para casa. Não sei se você se esqueceu, mas esta é justamente nossa tarefa.”
“Bom, é verdade. Mas porque tanto interesse em encontra-lo?”
“Não importa o porque, Alvric. O que importa é que temos ordens de encontra-lo. Agora a razão disso não nos cabe questionar, pois diz respeito apenas aos interesses de nossos mestres.” – disse Luscius de forma ríspida.
“Eu acho que sei o porque estamos atrás dele. Acho que assim como ele ajudou a encontrar a filha do mercador, talvez o Caçador também possa encontrar lorde Drakaellion.” – falava Alvric, deitado com as mãos atrás da cabeça, olhando para o teto do celeiro.
“Sim, talvez seja isso. Agora vamos dormir.”
“Mas tem outra coisa que me intrigou hoje. Foi a primeira vez que ouvimos alguém se referir a ele como o ‘Caçador’. Ninguém tinha chamado ele assim até agora.” – continuava Alvric a divagar.
“E que diferença faz isso?” – dizia Luscius ainda mais irritado.
“Como assim Luscius? Você não lembra do que o velho nos disse antes de partimos?”
“Do que você está falando? Que velho é esse agora? Vamos dormir, em nome dos Santos Imortais!”
“Você não lembra, Luscius? Do velho que lady Anara nos apresentou na véspera de nossa partida? Você se lembra que ele falou de um grande mal que viria cobrir tudo de trevas? Os mortos que habitam o Abismo voltariam a andar em nosso mundo: os drowas, os orcneas, os aglaecas, os nidhans… todos os scedugengas!” – Alvric segurou seu amuleto e bateu três vezes na madeira da parede do celeiro. Luscius simplesmente tentava ignorar o amigo.
“Mas você se lembra de quando ele falou que ainda haveria esperança? Que viria o tempo quando duas crianças de antigas linhagens queimariam as sombras? E que elas seriam protegidas por uma princesa e por um caçador? Durante este quase um ano ouvimos várias histórias sobre os malditos, Luscius! Eles estão voltando! E estas histórias sobre esse cavaleiro negro por toda parte por onde vamos? Agora, aqui no norte do reino, ouvimos eles o chamarem de Caçador! Exatamente como o velho nos disse que ele se chamaria. É um sinal, Luscius!” – dizia Alvric quase em êxtase e mais uma vez se benzia esfregando o amuleto.
“Ouça bem o que vou lhe dizer Alvric! Em primeiro lugar, esse velho é um louco e tão supersticioso quanto você, que acredita nessas bobagens sobre o fim do mundo, e está se aproveitando da boa fé e do desespero de lady Anara por seu irmão desaparecido. E em segundo lugar, ninguém com quem conversamos até agora viu algum desses monstros das sombras, ou espíritos abissais. Sempre é a mesma coisa: alguém ouviu falar que alguém viu! E esse caçador deve ser mesmo apenas um mercenário, e talvez a única coisa boa nisso tudo seja que ele realmente possa ajudar a encontrar lorde Drakaellion. E em nome de todos os Santos Imortais, pare de falar bobagens e vá dormir!” – disse Luscius furioso.
“Mas o velho conhece os segredos do Povo Antigo, Luscius! Ele disse que sabia das histórias da guerra que destruiu a Grande Cidade e…” – antes que pudesse concluir, Luscius havia se sentado e olhava fixamente para ele.
“Se você não se calar e me deixar dormir em paz, eu juro que farei com você algo muito pior do que qualquer um desses seus scedugengas faria! Eu juro!” – disse Luscius extremamente sério. Alvric, assustado com o amigo, se benzeu novamente, beijou seu amuleto, virou-se de lado e tentou dormir. Luscius ainda esperou até se certificar que o jovem tivesse desistido de qualquer nova tentativa de conversa. Finalmente deitou-se, mas não conseguia dormir. Apesar de não acreditar como seu amigo em tudo aquilo sobre o povo das sombras e profecias sobre o fim do mundo, ainda assim sabia que algo estava para acontecer. Sabia o verdadeiro motivo de estarem naquela missão atrás de um homem misterioso que não podia ser encontrado. Ele sabia a verdade por trás das histórias do Caçador que vagava pelas sombras da noite. Isso lhe foi revelado pessoalmente por lady Anara, há um ano atrás. Sabia também que o velho que lhes foi apresentado por ela não era um tolo, como acabará de dizer para Alvric. Mas ele acreditava que certas coisas deviam permanecer ocultas, ao menos por enquanto. Iria chegar o momento certo para que o amigo soubesse de toda a verdade. A única coisa que realmente importava a Luscius naquele momento era voltar para casa e rever sua mulher e seus filhos, e permanecer em suas terras que lhe foram prometidas.
Há um ano que andava disfarçado como um homem comum, um andarilho incógnito. Esse disfarce era necessário. Se os homens do barão descobrissem quem realmente era e sobre sua missão, iriam persegui-los e provavelmente mata-los. Assassina-los da mesma forma como foi com vários outros adversários do velho barão. Um homem frio, desumano. Ele estava desaparecido há muito tempo. Sua fortaleza e suas terras foram tomadas pelo rei, e muitos de seus aliados capturados e executados. Mas o barão havia conseguido escapar, juntamente com os seus feiticeiros e seus seguidores degenerados. Os horrores perpetrados por eles deixaram cicatrizes profundas em muitas famílias. Como a dele, pensava Luscius, e a de Alvric, mas principalmente entre os Drakaellion.
* * *
Ainda estava escuro quando começaram a arrumar suas coisas para partir. Precisavam estar fora da cidade quando o sol raiasse. Era este o combinado. Enquanto se preparavam, Alvric reclamava que sua barriga estava roncando e se não poderiam parar e comer alguma coisa antes de irem. Em resposta, Luscius apenas lhe lançou um olhar frio, o qual foi o bastante para o jovem ficar quieto e arrumar as coisas mais depressa.
Os primeiros raios da manhã começavam a despontar por sobre os blocos de pedra da muralha oriental de Huncginton. O silêncio pairava no ar, sendo rompido apenas por ocasionais ruídos distantes. Já havia algumas pessoas perambulando pelas ruas. Uma senhora idosa e maltrapilha caminhava lentamente em direção a eles, apoiada numa bengala. Ela era seguida por um garoto que carregava dois grandes baldes de madeira cheios de água, e por um cachorro que ficava correndo em torno deles, tentando convence-los a brincar. Ao se cruzarem, a velha lhes fez um cumprimento, ao qual eles corresponderam de cima de seus cavalos.
Quanto mais próximos do centro da cidade, maior o número de pessoas que eles encontravam. Quando finalmente chegaram no centro de Huncginton, puderam ver que havia um grande alvoroço. Estavam montando as barracas para a feira da primavera. O som das vozes e dos animais presentes no local se misturava ao barulho de martelos e pregos, e ao cheiro de frutas, carnes defumadas e outras iguarias a serem expostas naquele dia.
Luscius e Alvric tiveram de contornar a aglomeração que fazia os preparativos, pois era praticamente impossível cruzar a feira com seus cavalos naquele momento. Ao passarem por uma barraca de queijos que estava sendo montada, Alvric ficou tentado a parar, mas ao virar-se para o lado, foi surpreendido pelo rosto de Luscius olhando para ele uma vez este já que havia pressentido as intenções do amigo. O jovem Alvric desistiu da idéia e se conformou em continuar em seu caminho. Finalmente deixaram a feira para trás e voltavam a calma da cidade que ainda despertava.
Não demorou muito para que eles alcançassem o portão norte da cidade. Não havia praticamente ninguém por lá, com exceção de um ou outro pombo que os vigiava de cima dos telhados, e uma galinha que ciscava despreocupadamente no meio da rua. O sol já havia se erguido no horizonte quando eles cruzaram o portão de Huncginton rumo a estrada. Assim que saíram, ouviram um barulho logo acima deles. Assustados com o som inesperado, Alvric virou-se imediatamente em cima de sua sela, enquanto Luscius apenas levou a mão ao cabo de sua faca. Ambos tentavam encontrar o responsável, até que descobriram se tratar apenas de um dos guardas da cidade que estava no alto da muralha, tossindo. Recompostos do susto, continuaram em seu caminho.
Cavalgaram por quase meia hora em direção ao norte. Não havia nenhuma grande árvore ou bosque por todo o caminho. Até onde podiam enxergar, havia apenas a estrada e uma vegetação mais rasteira composta de grama, alguns arbustos e uma ou outra pequena árvore solitária. Por isso, não foi muito difícil enxergarem a colina que despontava logo à frente e a grande pedra em seu topo, à margem da estrada. Era uma pedra grande e alta, como se fosse o dedo de um gigante. Ela devia ser três ou quatro vezes mais alta que um homem, pelo menos.
Eles pararam e desmontaram. Alvric se aproximou do monólito, o observando com muita atenção, como se temesse que a qualquer instante a pedra fosse se mexer. Já era por volta das oito da manhã, e a luz do sol incidia sobre o monólito criando uma sombra gigantesca no solo. Em sua superfície era possível ver que há muito tempo existiram inscrições ali. Mas o tempo as apagou, tornando-se impossível compreender sua mensagem. Alvric, em silêncio, olhava intrigado para a pedra e depois para a sombra. Pensava em quem a teria colocado ali e por quê?
Ele estava mergulhado em seus pensamentos, quando de repente ouviu um grito! Alvric pulou assustado no mesmo lugar e ficou paralisado, segurando firme seu amuleto e esperando pelo pior. Novamente um grito, mas agora já não parecia mais tão assustador. Na verdade, parecia com a voz de Luscius. Ainda temeroso, virou-se lentamente.
“Alvric! Está surdo!” – gritava Luscius furioso.
“Ah, era você que estava gritando?” – disse Alvric tentando disfarçar.
“Claro que era eu! Você está vendo mais alguém aqui além de nos dois e dos cavalos? Agora deixe de bobagens e me traga aquela bolsa de couro, a preta.” – falou Luscius impaciente apontando para algum lugar próximo à sela de Alvric, enquanto prendia as rédeas de seu cavalo num arbusto. Alvric vasculhou em sua sela até que encontrou a tal bolsa preta de couro. Ele a olhou surpreso, pois nunca a tinha visto, e não fazia idéia de como ela havia ido parar em seu cavalo.
“O que é isso?” – perguntou para Luscius.
“Traga para cá.”
Alvric levou a bolsa até o amigo. Luscius a pegou, e de dentro tirou um queijo inteiro.
“Queijo! Mas como? Onde você arrumou isso?” – perguntava Alvric com certo ar de indignação pelo amigo não ter revelado antes a existência do queijo.
“Como assim? Eu comprei, claro!”
“Em Huncginton?”
“Não, em Bayling.” – respondeu Luscius enquanto cortava um pedaço e o oferecia ao jovem, que não se conformava em ter passado fome sem saber que o tempo todo havia um grande queijo em seu cavalo.
“Bayling? E por que tivemos de comer aquele pão seco e duro, sendo que tínhamos isso aqui para comer?” – exclamava Alvric ao mesmo tempo em que devorava o queijo. Luscius acabava de levar um pedaço à boca. Mastigou-o por um tempo e, apontando a ponta da faca para Alvric, disse em meio a um sorriso:
“Não falei nada, exatamente por isso que estou vendo agora. Se tivesse contado que tínhamos queijo, você teria comido tudo de uma só vez e agora estaríamos sem nada para comer. Entendeu agora, jovem mestre Alvric?” – dizia Luscius cortando mais um pedaço do queijo e o oferecendo ao jovem. Alvric se limitou a comer o seu desjejum. Mesmo porque, sabia que o que amigo dissera era verdade.
Após algum tempo estavam satisfeitos. Luscius guardou o restante do queijo, pouco mais que a metade dele, novamente na bolsa e ambos beberam um pouco de água. Estavam sentados em algumas pedras que se encontravam no local e aproveitavam os raios de sol da manhã.
“Luscius? E agora, o que faremos? Para onde vamos?”
“Para lugar nenhum. Vamos ficar por aqui e esperar.” – respondeu Luscius, que limpava os dentes com um ramo.
“Esperar? Por quem?”
“Não se preocupe. Descanse, por que termos uma longa viagem de volta.”
“Você quer dizer para casa? Nós vamos voltar para casa?” – dizia Alvric entusiasmado.
“Se tudo der certo, e espero que dê, vamos.” – falou Luscius, deitando-se junto a pedra, tentando descansar também.
Alvric estava radiante. A idéia de voltar para casa era algo que não esperava que viesse a ocorrer tão cedo. Afinal de contas, ainda não haviam chegado nem perto de concluir sua missão. Ao menos era o que lhe parecia. Tinham percorrido todo o reino atrás do misterioso Caçador que só andava durante a noite, e que o deixava apavorado. Ao que parecia, segundo as indicações que tinham obtido até então, era muito provavelmente que o tal Caçador estivesse ali nas regiões do norte. Mais precisamente, naquelas redondezas onde se encontravam. Mas de qualquer forma, se fosse verdade o que seu amigo acabará de dizer, finalmente poderia voltar para a casa, dormir em sua própria cama. Talvez, quem sabe, com a ajuda deste cavaleiro sombrio, poderiam trazer de volta lorde Drakaellion e ajudar lady Anara, solucionando assim dois problemas de uma só vez. Só esperava que não fosse tarde demais. Entretanto, ele ainda não entendia o que faziam ali. Se fosse para encontrar com o Caçador, não seria mais adequado esperar pelo cair da noite? Enquanto pensava, Alvric começou a observar o campo a sua frente. Percebeu que por toda a parte havia pedras, dos mais variados tipos e tamanhos. Ele olhou novamente para o monólito e voltou-se para Luscius, que estava começando a cochilar.
“Luscius! Luscius! Está dormindo?”
Luscius, sabendo que não conseguiria dormir até Alvric calar-se, sentou-se e se dirigiu a ele.
“Não! Não estou. Diga, o que foi?” – dizia em tom impaciente.
“Luscius, estas pedras todas. Por acaso havia alguma coisa aqui? Quero dizer, uma casa ou algo assim? Essas pedras parecem que faziam parte de algum tipo construção, não parece?” – falava Alvric, inspecionando as pedras.
“Sim, existia uma torre aqui, mas isso foi há muito tempo atrás. Nos tempos de Ascamor,o feiticeiro do norte.”
“O feiticeiro do norte?” – repetiu Alvric apreensivo. Percebendo a reação do amigo decidiu que, já que ele não poderia mais dormir, não deixaria o jovem Alvric dormir também.
“Sim, o feiticeiro do norte. Existe até mesmo uma canção sobre isso, chamada ‘A Vingança do Pajem”, se não estou enganado. Segundo dizem os versos da canção, há muito tempo atrás, aqui, exatamente neste lugar, se erguia uma torre de pedras. Mais alta que as muralhas Saelinor. E nela morava Ascamor, o feiticeiro. Dizem também, que Ascamor havia feito um pacto!”
“Um pacto? Que tipo de pacto?” – perguntou Alvric ansioso.
“Um pacto… com aqueles que habitam as sombras!” – respondeu Luscius, dando um tom sombrio a sua voz. Alvric arregalou os olhos e se benzeu.
“Pois bem.” – continuava Luscius – “Ascamor teria feito um pacto com as sombras. Elas iriam lhe conceder grande poder, mas em troca ele teve de lhes conceder sua alma. Assim, ele também se tornou um ser das sombras.”
“Um drower!” – sussurrou Alvric atônito.
“Isso mesmo.” – Luscius tomou mais um pouco de água e limpou a garganta. – “Ele então aterrorizou por muito tempo toda essa região do norte. Ele infestou as florestas de criaturas que rastejavam durante a noite e coisas piores. Muitos tentaram destruí-lo. Mas todos falharam. Aqueles que tinham sorte eram mortos imediatamente, mas outros sofriam durantes dias e semanas torturas terríveis antes de finalmente partirem para as Terras Imortais. Assim foi até que uma certa noite, bateu à porta da torre do feiticeiro um rapaz, mais novo do que você. Ele parecia insignificante para o feiticeiro, talvez por isso não foi morto imediatamente. Ao abrir a porta da torre, e ver o rapaz, este disse para Ascamor que gostaria de servi-lo, ser seu pajem ou quem sabe seu aprendiz. O feiticeiro riu e mandou o garoto desaparecer dali. Mas ele não foi embora. O rapaz permaneceu lá, plantado na porta do bruxo dia e noite. Ele caçava, trazia carne para o feiticeiro, água e evitava que curiosos se aproximassem da torre. Isso começou a chamar a atenção de Ascamor, que começou a levar em consideração a idéia de ter um pajem para lhe auxiliar. Quem sabe, quando crescesse, ele poderia a vir se tornar um útil guardião. Foi então que Ascamor, do alto de sua arrogância, disse que aceitaria o rapaz como pajem desde que ele lhe desse uma prova de lealdade.”
“E o que foi que ele fez?” – perguntou Alvric.
“Prometeu a ele que arrumaria a tal prova de lealdade. No quinto dia, após o seu último encontro, o jovem pajem apareceu no meio da madrugada na porta da torre de Ascamor, chamando pelo feiticeiro. Dizia que estava ali para entregar a sua própria irmã como uma prova de sua lealdade. O feiticeiro saiu ansioso, pois ele costumava raptar os jovens da região e tinha especial predileção pelas moças. Dizem que Ascamor se alimentava da carne e do sangue delas, e há muito tempo que ele tinha uma delas em suas mãos. Logo, ele estava sedento, faminto por poder ter a irmã do pajem. Porém, ao sair, viu que lá não havia nada mais que o próprio pajem. Furioso, Ascamor acusou o pajem de tentar engana-lo. Porém, o pajem lhe estendeu a mão e lhe entregou uma mecha de cabelo loiro que alegava ser de sua irmã. O feiticeiro a pegou no mesmo instante e a examinou, a cheirou e de repente ela se transformou numa pequena labareda nas mãos do bruxo. Ascamor então disse ao rapaz que ele dizia a verdade, que o cabelo pertencia a uma jovem. O pajem então lhe contou que sua irmã estava amarrada numa árvore em um bosque perto dali, mas que só levaria o feiticeiro até lá com algumas condições. Ele não queria ser apenas um simples pajem, queria que o feiticeiro lhe ensinasse o que sabia. O bruxo Ascamor disse que assim o faria, mas só depois que tivesse a jovem em suas garras. Mas o pajem foi irredutível, e disse que se ele não ensinasse seus segredos não entregaria a irmã. Ao que parece, eles ficaram um longo tempo discutindo, até que o feiticeiro perdeu a paciência e acabou cedendo, prometendo que o tomaria como aprendiz. Assim, o jovem pajem conduziu Ascamor para onde estaria a sua irmã. Eles se encaminharam até lá, mas depois de muito andar o feiticeiro desconfiou do rapaz, ameaçando que iria mata-lo se eles não chegassem logo ao tal bosque. Porém, o pajem o tranqüilizou e lhe mostrou que já haviam chegado, apontando que era naquele bosque que sua irmã estava presa. Ascamor correu desesperadamente até lá e começou a procurar por ela como louco, mas não a encontrava. Foi quando começou a ouvir um grito, como de alguém em desespero. O feiticeiro correu imediatamente até lá, seguindo o som, mas quando chegou era apenas um porco amarrado a uma árvore. Ascamor ficou furioso e jurou que voltaria e mataria o garoto por tê-lo feito de bobo. Porém, ele se esqueceu de um detalhe. Ele estava tão ansioso, tão sedento por sangue que não notou que o sol já estava nascendo. E como sabemos, o povo das sombras não suporta a luz do dia. Desesperado, ele correu o máximo que pode para voltar para a sua torre. Mas assim que saiu do bosque, pode ver que o sol já estava muito mais adiantado do que ele imaginava. Quando estava quase chegando na torre, pode ver o jovem pajem na frente da porta de sua torre. O rapaz tinha se aproveitado da distração de Ascamor, que havia deixado a porta da torre aberta, entrou e colocou fogo em tudo o que havia. A torre estava em chamas, se parecendo com um grande farol. O feiticeiro entrou em desespero, pois não tinha mais para onde ir. Quando os primeiros raios do sol tocaram sua pele, ele começou a queimar. Assim, num gesto desesperado, dizem que ele realizou uma última feitiçaria tentando se salvar e transformou a si mesmo em pedra, permanecendo assim para sempre. E foi assim que o jovem pajem vingou a morte de sua mãe, que havia morrido nas mãos de Ascamor, e livrou as fronteiras em que estamos agora do maligno feiticeiro do norte.”
Quando Luscius acabou de contar a historia, Alvric continuou paralisado. Ficou refletindo sobre a historia do pajem e do feiticeiro, e só então conseguiu dizer alguma coisa.
“Luscius, você disse que o feiticeiro acabou virando pedra, não foi?” – disse Alvric.
“Sim, foi isso mesmo.”
“E… para onde eles levaram o feiticeiro depois que ele virou pedra?” – perguntou Alvric.
“Ora, para lugar nenhum. Ele está ai bem atrás de você.” – disse Luscius absolutamente tranqüilo, enquanto abria um mapa de couro que retirou de uma das bolsas que carregava.
Alvric, lentamente se virou, e atrás dele estava o grande monólito. Ele se levantou num instante e rapidamente se afastou até seu cavalo, levando-o para outro lugar longe da pedra. Luscius que o observava conteve o riso.
“Não vá me dizer que você não se lembra dessa história? Eu mesmo devo tê-la cantado varias vezes para você e seus irmãos quando eram menores. Por que você acha que chamam esse lugar onde estamos como Dun-Ascamor? Bem aqui nesta colina, segundo a lenda, era onde ficava a torre do feiticeiro. Veja só aqui. Descendo esta colina em que nos encontramos já é a fronteira de nosso reino. Bem ali embaixo, está vendo?” – Luscius apontava para o mapa que tinha em suas mãos, mostrando um lugar com o desenho de uma colina no norte do reino e logo depois apontou para os pés da colina onde estavam, também em direção ao norte.
“É mentira! Você está rindo! Você inventou tudo isso só para me assustar!” – dizia Alvric contrariado.
“Não, é tudo verdade. Quero dizer, a história existe realmente e faz parte de uma música. Agora se é verdade eu já não posso afirmar com certeza”.
Um bom tempo já havia se passado desde que eles haviam chegado na pedra. O sol estava mais alto e a sombra do monólito diminuído. Enquanto Luscius ria e Alvric tentava desmentir o amigo, ouviram o som de um relinchar de cavalo muito próximo a eles. Estavam tão distraídos que não perceberam sua aproximação. Imediatamente eles se voltaram para onde estava o animal. Luscius estava com sua faca em punho. Lá, sobre um cavalo castanho, estava um homem. Era jovem ainda, mas a barba cor de cobre lhe dava uma aparência mais velha e séria. Usava um manto verde de peregrinos, porém, era possível ver o marrom de parte de suas vestes sacerdotais que estava usando por baixo. Após o susto inicial, puderam reconhece-lo. Luscius guardou sua faca e se aproximou do recém-chegado. Sem desmontar, o homem disse aos dois de forma repreensiva e ríspida: “Vocês estão atrasados!”
“Um bom dia para você também, Plaemund.” – respondeu Luscius.
“Plaemund? O que está fazendo aqui? Era você que deveríamos encontrar?” – perguntava Alvric, confuso.
“É bom ver que você continua inteligente, Alvric.” – respondeu Plaemund.
“E você continua bem humorado, não é Plaemund?”. – disse Luscius, intercedendo pelo amigo.
“Vocês estão atrasados! Deveriam ter chegado ontem aqui. O que aconteceu?”
“Tivemos problemas na aldeia de Pervel.”
“Problemas?”
“Sim. Com os homens do barão. Tivemos de fugir deles durante uma noite inteira pelo meio da floresta. Só nos livramos deles quando chegamos em Bayling. Por isso, acabamos passando mais tempo do que devíamos na cidade.” – dizia Luscius.
“Mas de qualquer forma vocês se atrasaram!” – respondeu Plaemund friamente, ainda de cima do cavalo. Luscius se aproximou e segurou as rédea do cavalo de Plaemund.
“Escute aqui garoto! Não é só porque você usa roupas de sacerdote que tem o direito de falar dessa forma comigo ou com Alvric! Você não é muito mais velho que ele, e eu conheço os dois desde os tempos e que vocês andavam com os narizes sujos agarrados às pernas de suas mães. Então, não me venha com toda essa pompa. Pois senão, eu vou até ai e o arranco de cima desse cavalo para lembra-lo como é ter um pouco mais de boas maneiras. Além do mais, se pudéssemos, teríamos chegado antes. Mas não foi possível. E eu não estou me justificando para você, estou apenas lhe informando o que aconteceu. Entendeu meu rapaz?” – disse Luscius. Seu rosto era como uma máscara de ferro olhando para o jovem clérigo. Alvric olhava para a cara de espanto de Plaemund, e ao mesmo tempo tentava conter o riso.
Plaemund engoliu em seco e decidiu desmontar do cavalo. Deu um passo na direção de Luscius e fez uma reverência, curvando-se.
“Me desculpe mestre Luscius. É que estou muito preocupado. Precisamos agir logo, antes que seja tarde demais para lady Anara e para Garhund.”
Luscius permaneceu onde estava, com o olhar atento sobre o jovem sacerdote. Finalmente se aproximou dele e pousou sua mão sobre o ombro esquerdo dele. O clérigo ergueu a cabeça e pode ver o olhar de Luscius, quase paterno para ele. Sem que fosse dita uma palavra, sabia que havia sido perdoado.
“Nós também estamos preocupados Plaemund. Mas diga, o que você conseguiu? E onde está Henreth” – disse Luscius.
Plaemund baixou o olhar e supirou profundamente antes de responder. Mas antes que ele dissesse alguma coisa, Luscius perguntou – “Onde e quando aconteceu?”
“Há três meses, próximo de Lunth. Sem querer, dissemos mais do que deveríamos e homens do barão estavam por perto. Tentamos fugir, mas fomos cercados. Henreth me disse para continuar enquanto ele iria atrasá-los. Consegui me esconder numa caverna até que eles fossem embora. Quando amanheceu, descobri que eles tinham ido embora mas que Henreth havia perecido.” – Plaemund falava sem tirar os olhos do chão.
“Como? Eu quero saber!” – o olhar de Luscius ardia num misto de ódio e tristeza.
“Duas flechas. Pelas costas. Sinto muito Luscius. Seu irmão foi com honra para as Terras Imortais.” – disse Luscius, a voz calma e num tom típico de consolo utilizado pelos sacerdotes ao tentar confortar seus fiéis.
Luscius se manteve calado por alguns minutos. Os punhos cerrados com força. Alvric olhava atento para o amigo e para Plaemund sem saber o que fazer. Finalmente, Luscius respirou fundo, passou as mãos no rosto e como que retornando de um pesadelo voltou-se para Plaemund. – “Pois bem, o que você consegui?”
“Percorri todas as fronteiras do reino, e ao que parece, nosso homem esteve em toda parte.” – dizia o clérigo enquanto retirava um mapa de dentro de sua bolsa de couro surrada. Ele desenrolou o mapa, onde estava desenhado todo o reino. O papel estava marcado e quebradiço devido ao uso. Era possível ver vários pontos marcados, correspondendo em sua maior parte a cidades e aldeias fronteiriças. – “Estes foram os locais onde obtive os relatos que me pareceram mais relevantes.” – Enquanto falava, Plaemund ia apontando com o dedo os locais e contando rapidamente o que tinha ouvido em cada lugar.
“Ormond, Duhlan, Eborac, Winbar… em todas elas as pessoas tinham histórias sobre um cavaleiro negro, que viaja durante a noite caçando os malditos e quem quer que lhe pagassem para ir atrás.” – Plaemund continuava a relatar o que sabia. Alvric, que até então se manteve calado se aproximou, silencioso, sobre o mapa.
“Aqui eles o chamam de o Caçador!” – disse Alvric, atento e de olhos arregalados.
Plaemund não interropeu seu relato, apenas falou mais devagar e mais baixo, esperando que Alvric continuasse. Mas como o jovem se calou, ele voltou a falar como antes. – “Finalmente, em Straedling eu pude obter provas reais da existência do tal… Caçador!”
“Provas? Que tipo de provas?” – disse Luscius.
“Quando cheguei em Straedling, era de manhã, havia uma grande multidão no centro da cidade. Eles gritavam e diziam muitos insultos. Ao me aproximar, vi que o centro das atenções eram dois homens. Bem, na verdade o cadáver de um homem, pendurado numa forca, e um outro que estava vivo e amarrado num poste de madeira. As pessoas gritavam insultos e atiravam todo tipo de coisas contra ele. Havia dois soldados da guarnição da cidade lá, garantindo que a população não matasse o homem. Perguntei a um velho que estava mais distante do tumulto a respeito daquilo tudo. Ele me disse que alguns dias antes, os dois homens que ali estavam tinham raptado a filha única de um camponês da cidade, a estuprado e assassinado a moça. Seu corpo havia sido encontrado num bosque próximo de lá e os dois desaparecido. Straedling não é muito grande, e o fato revoltou a cidade a ponto da população se unir e prometer uma recompensa para quem fosse capaz de trazer os dois criminosos de volta, vivos ou mortos. Já havia se passado mais de um mês e ninguém sabia dos dois homens. Alguns caçadores de recompensas chegaram a passar pela cidade, mas se desinteressaram devido ao valor baixo que a população estava disposta a pagar. Entretanto, na noite anterior a minha chegada o velho disse que , pouco antes do nascer do sol, surgiu um homem estranho montado num cavalo negro e usando um manto escuro. Trazia os dois homens que lá estavam. Ambos tinham suas mãos amarradas e eram arrastados por cordas presas a seus pescoços. Um já estava morto e o outro cambaleante. O cavaleiro os trouxe até a torre de vigia e exigiu de uns dos guardas a sua recompensa. A notícia se espalhou como fogo pela cidade, e em poucos minutos a cidade inteira estava lá. Os soldados ficaram com os dois homens e um outro trouxe o pagamento. Eram 25 moedas de ouro e um porco.”
“Um porco?!” – exclamou Alvric, interrompendo a história de Plaemund.
“Eu também achei estranho, mas o velho se justificou dizendo que eles passaram por tempos difíceis, mas que o porco era bem grande. Na verdade era o maior porco e o único da cidade, e que pertencia justamente ao velho que contava a história. Depois fiquei sabendo que uma uma praga na colheita contribuiu para a miséria deles. Mas, lá estava o tal Caçador esperando seu pagamento. Ele pegou o dinheiro e rejeitou o porco. O que deixou o velho muito feliz, pois ele tem um certo apego sentimental pelo animal.”
“Mas e o cavaleiro? O que aconteceu com ele?” – dizia Luscius, ansioso.
“Ao que parece, ele pegou o dinheiro e foi embora. Mas o importante de tudo isso, é que não foi apenas uma história qualquer como as demias. Eu vi os dois homens capturados. Eles eram reais.” – disse Plaemund.
Luscius estava pensativo – “E você teve mais alguma notícia do paradeiro do cavaleiro negro?”
“Sim, por isso que eu quis que vocês chegassem o quanto antes aqui. Existe uma aldeia mais ao norte, além da fronteira. Fiquei sabendo que alguns animais e uma criança desapareceram próximo do riacho que corre às margens da aldeia. Alguns dizem que foi obra dos malditos, eu não creio, mas o importante é que há dois dias atrás eu passei por lá e me disseram que ele esteve por lá perguntando sobre a criança e os animais.” – Plaemund estava muito entusiamado ao contar a eles estas últimas informações.
“Você quer dizer que o Caçador está por aqui?” – disse Luscius atônito.
“Exatamente! Se ele perguntou sobre a crinaça, é porque ele vai atrás dela. Ao menos é o que sempre acontece nos relatos que ouvi. Talvez seja a nossa única chance de encontrá-lo!” – Plaemund estava com olhos arregalados e sorrindo, balançando as mãos freneticamente.
“Você tem razão.” – falou Luscius enquanto coçava a barba com um olhar vago - “Claro que você tem razão, Plaemund! Devemos ir agora mesmo para esta aldeia. Há quanto tempo daqui?”
“Por volta de meio dia de viagem.”
“Então vamos logo!” – disse Luscius, voltando-se em direção ao seu cavalo. Todos fizeram o mesmo imediatamente, montaram e partiram rumo norte, para a tal aldeia. Estavam viajando há algum tempo, o sol já começa a baixar. Viajam quietos, apenas com o som de alguns pássaros e dos cavalos, quando de repente Alvric rompeu o silêncio – “Plaemund?”
“O que foi?” – respondeu o clérigo, de modo enfadonho.
“O porco era realmente grande?”
Plaemund olhou de soslaio para ele e exitou alguns segundos antes de responder – “Não sei, não o vi. Mas o velho disse que era bem grande mesmo. Enorme!”
“É mesmo?” – disse Alvric, divagando, sem esperar por uma resposta e se calando com um ar pensativo.
Continuaram a viajar em silêncio e sem fazer nenhuma parada. Assim que deixaram os pés da colina de Dun-Ascamor e cruzaram o riacho raso que existia ali, Alvric virou-se em cima da sela e olhou para trás. Ao longe, viu o grande e solitário monolito do bruxo. Sentiu uma sensação estranha, de estar abandonando o mundo como conhecia e se aventurando em terras que desconhecia. Como se estivesse megulhando em águas turvas. Se ajeitou sobre o cavalo novamente e a sua frente, cobrindo todo o horizonte, via as copas das árvores da grande floresta de Moerholt, e um frio cortante percorreu seu corpo.
Moerholt, a floresta negra, onde coisas estranhas aconteciam. Segundo as lendas, a floresta há muito tempo era lar do Povo Pequeno, lar dos schedugengas e de outras criaturas. Ainda assim, existiam muitas aldeias a sua borda. Mas eram comuns relatos de animais que desapareciam e pessoas que avançavam floresta a dentro e nunca mais eram vistas. Existiam até mesmos histórias de pessoas que entravam na floresta e desapareciam e anos depois retornavam, mas diferentes. Haviam se tornado espíritos do abismo. Voltavam em busca da carne dos vivos, e depois de terem saciado sua fome abjeta, retornavam para a escuridão da floresta. Ao menos eram as lendas que Alvric conhecia. E para o desespero do jovem, era para uma dessas aldeias próximas a Moerholt que eles estavam rumando, em busca do misterioso Caçador.
Conforme se afastavam das fronteiras de seu reino, parecia que tudo ao seu redor, ainda que familiar, estava se mudando. As plantas pareciam ter uma nova cor, mais escuras e morrendo. Não havia mais sons de pássaros ou qualquer outro tipo de animal. Até mesmo o céu parecia mais escuro, com nuvens pesadas cor de chumbo. Esta costumava ser a impressão de quem se aproximava de Moerholt.
Chegaram à aldeia de Omne ao cair da noite. Omne era uma aldeia muito pobre, localizada às margens da grande floresta e por isso, fora das principais rotas das caravanas que rumavam para o sul. Seus habitantes viviam essencialmente da pesca de caramujos e pequenos peixes que viviam no fundo do rio que margeava a aldeia, que fluía diretamente do coração de Moerholt. A cavalo, em poucos minutos já haviam atravessado toda a aldeia. Naquela era já não havia mais ninguém fora de seus lares. Pequenas cabanas de madeira e barro, cobertas por telhados de vime. A única construção de madeiras e pedras, a maior da aldeia, era uma capela. Seguindo a orientação de Plaemund, eles se direcionaram para ela. Passando ao lado dela, puderam ver o brilho lúgubre de uma vela, através de uma minúscula janela.
Chegaram a sua frente e desmontaram de seus animais. Plaemund bateu três vezes na porta da capela e aguardou. Em pouco tempo ouviram passos se aproximando e o barulho de alguém, provavelmente, retirando a trava da porta. A porta se abriu reclamando com um longo ranger de suas dobradiças, revelando apenas a escuridão em seu interior. Porém, logo surgiu a figura de um homem baixo, de rosto magro e envelhecido, ofegante pelo esforço de abrir a porta, e segurando uma vela que mal iluminava o seu rosto. Usava trajes sacerdotais encardidos e gastos. O velho exprimia os olhos e erguia a vela acima de sua cabeça, na tentativa de enxergar melhor quem batia a sua porta. Isto dava uma aparência ainda mais estraha a ele. Ele olhava para cada um dos três tentando reconhecê-los. “Que são vocês? O quê querem aqui a esta hora?”
Plaemund se pronunciou antes que os demais. “Sou eu, caro irmão Coeln. Plaemund de Garhund. Estive aqui há dois dias atrás, lembra-se irmão?” – O velho ainda exprimia os olhos, mas ouvir as palavras de Plaemund os arregalou, como se tivesse recebido uma revelaão diretamente dos Santos Imortais. “Plaemund! Meu jovem irmão! Claro, claro! Por favor entre! E quem são esses com você?” – dizia o velho clérigo, dando passagem para que eles entrassem.
“São meus amigos, irmão. Este é Luscius e Alvric, das terras do sul como eu.” – dizia Plaemund.
“Todos de Garhund?” – perguntou o velho de forma descontraída.
Alvric e Luscius se entreolharam desconfiados – “Não exatamente. Próximos de lá.” – respodeu Luscius. Neste último ano eles sabiam que não podiam confiar em ninguém.
“Que ótimo ter amigos do sul aqui! Sabe, eu sou de Hronrade, na costa a oeste de Saelinor. Depois que fui ordenado me enviaram para cá para embutir a sabedoria dos Imortais nas almas dos habitantes além das fronteiras do reino, foi o que me disseram. Bah! Nem mesmo o grande Hathunar seria capaz de embutir sabedoria na cabeça desses miseráveis comedores de caramujos!” – dizia o clérigo num desabafo.
“Há quanto tempo você está aqui?” – perguntou Luscius, curioso.
“Toda minha vida, desde que fui ordenado como sacerdote dos Imortais no grande templo em Saelinor. Eu devia ter por volta de dezesete ou dezoito anos, já faz tanto tempo…” – o velho falava, mas não parecia que suas palavras eram direcionadas aos seus convidados, mas sim para ele mesmo em reflexão.
“E por quê você nunca foi embora?” – perguntou Alvric.
“Ora, meu jovem. Não se pode simplemente abandonar uma tarefa que lhe é imposta! Além do mais, alguém tem de ficar aqui. Mesmo os comedores de caramujos precisam de auxílio para suas almas”. dizia o velho enquanto acendia a lareira da cozinha. Alvric ouviu as palavras do sacerdote, mas não lhe fazia sentido algum o que ele disse, então desistiu de continuar com aquele assunto.
A capela era simples e sem grandes atrativos. Além da área central para as cerimônias, possuía três salas laterais, correspondendo a cozinha, dormitório e uma pequena despensa. Assim como o resto da aldeia, era um a capela era úmida e fria. O velho sacerdote havia colocado uma chaleira sobre o fogo – “Chá! Vocês gostam de chá? É claro que gostam! Todo mundo gosta de chá!” – ele dizia enquanto se movia pela pequena cozinha.
“Irmão Coeln, não precisa se incomodar por nossa causa. Nós estamos apenas de passagem. – dizia Plaemund.
“Ora, mas não trabalho algum. Afinal de contas, é tão raro eu receber alguma visita que faço questão de ser um bom anfitrião.”
Assim que o chá ficou pronto, e Coeln serviu a todos, Plaemund lhe perguntou sobre o assunto que os levou até lá. “Caro irmão, eu e meus amigos gostaríamos de sua ajuda para um assunto muito importante.”
“Será um prazer ajudá-los… se eu puder, irmão.”
“Por favor, conte aos meus amigos o que você me contou naquela última vez em que estive aqui. Sobre o tal cavaleiro negro e o desaparecimento da menina.”
“Sim, sim… claro! Muito bem!” – o clérigo sentou-se no único banco de medeira que existia na cozinha, próximo à lareira, enquanto sorvia o chá quente de sua caneca. “Como disse ao irmão Plaemund, alguns dias atrás a filha de um dos pescadores da aldeia desapareceu. Dizem que ela estava com seus irmãos às margens do rio. Eles estavam atrás de um cachorro que eles tinham e que havia sumido. Eles estavam bem próximo da floresta quando, segundo os irmãos dela, uma coisa saiu de trás de uma árvore e os tentou agarrá-los. Os dois irmãos mais velho correram assim que perceberam a tal coisa, mas a menina não teve a mesma sorte. Eu não acredito neles! Provavelmente se apavoraram e deixaram a irmã para trás.”
“Mas que tipo de coisa era essa?” – perguntou Alvric.
“Eles não souberam dizer exatamente o que era, mas disseram que se parecia com uma mulher. Uma mulher pálida e de olhos vermelhos. Disseram que a tal mulher gritava como um animal. A criatura agarrou a pobre menina e a arrastou para dentro da floresta.” – Alvric estava atento, e esfregava o amuleto em seu pescoço.
“E ninguém tentou ir atrás dela?” – perguntou Luscius.
“Não, apenas o pai da menina. No dia seguinte ao rapto de sua filha, ele decidiu seguir o curso do rio e as indicações de seus filhos e entrou em Moerholt. Até agora não retornou e temo pelo pior.” – falou o velho clérigo desesperançado, enquanto dava o último gole de seu chá.
“Irmão Coeln, conte a eles também sobre o estranho cavaleiro que apareceu.” – disse Plaemund.
Coeln encheu novamente sua caneca e voltou ao seu lugar. Alvric e Luscius haviam tomado apenas um gole do chá e desistiram. Ele tinha um gosto forte e amargo de uma erva que eles desconheciam, mistura ao gosto de barro da água.
“Claro, estava me esquecendo disso! Há umas duas ou três noites atrás, uma noite antes do irmão Plaemund aparecer aqui, um estranho a cavalo veio até a aldeia buscando informações sobre o desaparecimento da filha do pescador.” – dizia Coeln, bebendo o seu chá.
“Mas você viu esse cavaleiro?” – perguntou Luscius.
“Se eu o vi? Ora, ora, ora meu caro… não apenas o vi como falei com ele!” – respondeu o sacerdote com meio-sorriso nos lábios. Luscius e Alvric olharam espantados para o sacerdote e, sem perceber, se aproximaram para ouvir melhor a história. Desde que começaram sua busca, nunca tinham conversado com ninguém que tivesse falado pessoalmente com o Caçador.
“Ele apareceu no meio da noite. Eu estava me preparando para dormir, quando ouvi um barulho do lado de fora. Era o relinchar de um cavalo. Como não existem cavalos aqui na aldeia, tentei ver pela janela quem era. Mas na mesma hora bateram na porta. Com medo, me mantive em silêncio na tentativa de faze-lo se cansar e ir embora. Mas ele insistiu, e acreditei que se não abrisse a porta era capaz dele derrubá-la. Ao abrir a porta eu o vi! Ele havia desmontado e segurava as rédeas do cavalo com uma das mãos, enquanto a outra estava pousada sobre o cabo da espada. Como chovia naquela noite, não retirou o manto que cobria sua cabeça. Eu o convidei para entrar, mas ele não quis, disse que não era preciso. Disse que gostaria apenas de uma informação. Foi quando ele falou sobre o o desaparecimento da menina. Ele disse que boatos já haviam corrido pelas aldeias vizinhas e que ele gostaria de saber onde a menina tinha sumido. Expliquei a ele, exatamente como lhes contei. Ele agradeceu, montou em seu cavalo e partiu. Mas antes que ele se afastasse demais, eu disse a ele que não havia nenhuma recompensa pelo resgate da menina. Pois eu já conhecia a sua fama. Ele apenas se virou em cima de sela e disse que já sabia disso, e continou a se afastar.”
Luscius e Alvric estavam impresionados, estáticos, olhando fixamente para o clérigo. Luscius finalmente se livrou do torpor e perguntou a Coeln: “Ele disse mais alguma coisa?”
“Não, foi apenas isso que eu lhes contei.”
“Talvez ele não esteja mais por aqui, mas seria interessante irmos até o lugar onde a menina sumiu.” – disse Luscius para todos.
“Mas não agora a noite, não é?” – disse Alvric apreensivo.
“Não, claro que não!” – respodeu Luscius.
“Creio que ele ainda está por aqui sim.” – disse Coeln para os três visitantes.
“Como sabe?” – perguntava Plaemund.
“Porque ontem, um dos aldeões que vivem próximos a floresta, me contou ter visto um homem num cavalo negro logo antes do antes do anoitecer entrarndo na floresta. Outros aldeões disseram que também que um estranho, com as mesmas descrições, andou fazendo perguntas sobre a menina e seu pai. Com certeza ela ainda está pelas redondezas. Provavelmente na floresta.”
“Então amanhã iremos ver onde a filha do pesacador desapareceu e, se tivermos sorte, encontraremos o tal Caçador.” – disse Luscius aos outros dois companheiros.
continua…
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