O brilho pálido cobria seu rosto, enquanto seus olhos observavam o canto inferior da tela do computador. O relógio tinha acabado de mudar de “07:27h” para “07:28h”. Levou o cursor até lá, e surgiu a mensagem “segunda-feira, 15 de agosto de 2016”. Estava completamente entediado. Decidiu verificar seu celular e descobriu que ele estava desligado. Tentou liga-lo, mas nada aconteceu. Foi quando lembrou que havia esquecido de recarregá-lo durante a noite. Resmungou um palavrão a si mesmo e guardou o aparelho de volta no bolso da calça. Não havia mais ninguém lá. Tinha se confundido com o horário da reunião. Acreditava piamente que ela estava marcada para as sete horas. Assim que chegou e olhou no quadro de recados, viu: “Segunda-feira! Reunião, 8 horas! NÃO ESQUEÇAM!”. Ele esqueceu. “Pelo menos não me atrasei”, disse em voz alta, tentando ver o lado positivo da situação.
Levantou-se e foi até as grandes janelas da sala de reunião. O céu de chumbo pairava sobre a cidade despejando uma garoa fina e fria desde o amanhecer. Do alto do 15º andar onde estava a cidade parecia tranqüila, silenciosa. Claro que isso se dava por causa dos vidros grossos da janela. Mas isso não tirava a poesia daquele momento para ele. Na verdade, tudo estava tão silencioso que ele até poderia acreditar ser o último ser humano sobre a Terra. Esse pensamento lhe trouxe um certo mal estar, pois o fez lembrar dos antigos filmes apocalípticos que via quando criança, onde algum tipo de peste eliminava boa parte da população, deixando poucos sobreviventes tendo que fugir de exércitos de zumbis.
Estava distraído em seus pensamentos sobre o fim do mundo e mortos-vivos, quando algo chamou a sua atenção. Na mesma altura de seu andar, a duas quadras de seu prédio havia um grande telão. Nunca o tinha visto daquele ângulo. Todas as vezes estava lá embaixo, na calçada. E de lá ele sempre lhe pareceu gigantesco, imponente. Mas ali de cima ele só parecia um aparelho de tv gigante pendurado em um prédio espelhado.
Naquele momento, como de costume, passava uma propaganda qualquer de aparelhos de celular. Na seqüência outra propaganda de perfume feminino. Apareceu uma mulher deslumbrante, de longos cabelos dourados e pele alva. Ela se movia devagar, em câmera-lenta, através de um salão de festas vitoriano cheio de homens em traje black-tie. Enquanto ela se movia, os homens lhe davam espaço. Era como uma versão moderna de Moisés e o Mar Vermelho. Conforme ela passava, todos olhavam hipnotizados para ela. Ao chegar no final do salão, ela se virava e a câmera lhe dava um close. Com um olhar sensual dizia alguma coisa e surgia a imagem do frasco do perfume. Mas não foi possível ver qual era o nome do perfume, pois inesperadamente a imagem foi cortada e o símbolo do governo surgiu na tela. Geralmente quando isso acontecia significava alguma notícia importante ou algum pronunciamento surpresa do presidente. Entretanto, a imagem que surgiu foi de uma multidão agitando milhares de bandeirinhas em frente a um prédio. Como não podia ouvir o que diziam, demorou a entender o que estava acontecendo. A imagem permaneceu sem grandes novidades por alguns minutos. Algumas vezes apareciam tomadas mais próximas das pessoas. Foi quando pode reconhecer que era a bandeira do Reino Unido que eles agitavam. Imediatamente tudo ficou claro. Deviam ser as cenas das comemorações pelos 300 anos de re-unificação da Inglaterra.
De um outro ponto do local, mostravam a guarda real saindo pelos portões do Palácio de Buckingham e logo atrás vinha a carruagem com a rainha e seu esposo. A multidão explodiu em gritos de comemoração. Ao que parecia, aquela seria a última cerimônia pública da qual participava. Segundo boatos, ela iria abdicar. Mas até então não passavam de boatos. Enquanto a carruagem passava, a velha rainha acenava para as pessoas com um sorriso tímido. Provavelmente, o dia todo seria interrompido com chamadas esporádicas para mostrar os principais momentos das celebrações.
O telão ainda mostrava a região do palácio apinhada de pessoas que se espremiam tentando conseguir um aceno de vossa majestade. Mas ainda assim, não parecia que nada de errado pudesse acontecer, como alguém tentar furar o bloqueio da polícia, por exemplo. Há semanas que todos os jornais falavam sobre as comemorações dos 300 anos de re-unificação britânica e do esquema de segurança planejado para o mesmo. Diziam que, diferente dos anos anteriores, o policiamento seria reforçado devido ao perigo de algum atentado contra a família real. Meses antes, algumas manifestações populares e atentados contra figuras políticas européias e norte-americanas quase conseguiram cancelar qualquer tipo de exposição pública da família real britânica. Um destacamento de policiais motorizados já estava aguardando a carruagem real para escolta-la até ao Parlamento.
De repente, algo havia ocorrido. Como não podia ouvir o que diziam, não conseguia compreender exatamente o que estava acontecendo. Mas seja lá o que fosse, algo tinha saído errado. A multidão começou a correr de forma desordenada para todos os lados. Imediatamente, seguranças arrastaram a rainha e seu esposo para dentro de um carro que estava estrategicamente por perto e desapareceram de lá. Havia muita fumaça na imagem. Pessoas correndo e o pânico estampado em seus rostos. De repente um clarão no canto da tela e a imagem passou a mostrar o chão. Obviamente a câmera tinha caído. Mas imediatamente a imagem mudou para uma câmera aérea, e só então ficou claro o que estava acontecendo. Havia muita fumaça e fogo em quatro pontos distintos da multidão. O que fez com que a multidão descontrolada, instintivamente, se concentrasse na área do Memorial da Rainha Vitória, em frente ao Palácio de Buckingham, para tentar uma rota de fuga. As pessoas que antes se empurravam para poder enxergar a rainha, agora se acotovelavam para fugir de lá. Provavelmente muitos já haviam sido pisoteados. Foi quando um grande clarão amarelo tomou conta da tela. Alguns segundos depois uma grande nuvem de fumaça ocupava a imagem com alguns focos de incêndio.
Foi difícil compreender o que havia ocorrido. Não porque a imagem não fosse clara, mas sim devido ao insólito da cena. Se ele não estivesse enganado (e ele esperava que estivesse), todo o Memorial da Rainha Vitória havia explodido. E com ele, todas aquelas pessoas que lá estavam aglomeradas tentando fugir. Corpos carbonizados e pedaços do que antes foram seres humanos, se espalhavam pelo por todos os lados. Para comprovar que tudo aquilo havia acabado de acontecer e não um filme ou um sonho, no canto superior da tela aparecia a expressão “Ao Vivo”. A imagem de holocausto em frente ao palácio não durou muito. Imediatamente aquela cena no telão saiu do ar e o símbolo do governo voltou apareceu em seu lugar. Não podia ouvir, mas tinha certeza que estavam dizendo que tiveram problemas técnicos e que em breve voltariam com a programação normal. Para ter certeza, correu até ao computador para tentar buscar mais informações do ocorrido. Tentou, mas sem sucesso. A internet estava fora do ar. “Alguém lá de cima puxou a tomada”, pensou, enquanto ligava o rádio do aparelho de som que tinha na sala. Todas as rádios também pareciam estar fora ar. Percorreu todas as freqüências até que finalmente encontrou alguma coisa. Era uma música antiga, familiar. Ele simplesmente não acreditava naquela coincidência. Não podia haver uma música mais adequada para aquele momento. Assim que a música terminou, a voz do locutor disse: “Essa foi das antigas, hein! ‘End of the World’, do REM! E com ela nós fazemos um pequeno intervalo de 2 minutos. Não saiam daí!”, e começou uma propaganda sobre um show de alguma banda adolescente que ele desconhecia. Desligou o rádio e disse para si mesmo: “Tudo é uma questão de timming.”
A porta da sala se abriu e uma voz feminina lhe perguntou espantada: “Caiu da cama?”
continua…









