“Ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele,
mas o mundo não o reconheceu.” – João 1: 10.
Prólogo

Caindo! Caindo sem parar. Rumo à imensidão negra. As trevas o envolvendo cada vez mais. Um constante frio na barriga. Um misto de pavor por não saber o que o esperar no final, e a liberdade de estar livre no espaço. O vento frio chicoteando seu rosto, secando seus olhos e dificultando a visão. Uma queda livre rumo a escuridão do fundo do abismo. Não tinha noção de tempo. Parecia que estava ali há horas, talvez anos ou séculos. O medo tomava conta de sua alma de tal forma que o impedia de articular qualquer tipo de raciocínio que não fosse gritar. Gritar desesperadamente. Mas sua voz perdia força frente o poder da velocidade da queda e do vento. Mas no fundo de sua mente, como num sussurro, ele ouve uma voz que diz suavemente: “Acorde!”
Abre os olhos. Está sentado em sua própria cama. Os lençóis e o travesseiro estão ensopados de suor. Ainda olha para os lados, assustado, como se procurando por alguma coisa. Se certificando de onde está e o que está acontecendo. Havia acordado de repente com o próprio grito. Percebe que está em seu quarto. Corre até a janela e vê que ainda é noite. Checa o despertador ao lado da cama, e vê o brilho vermelho indicando “3:03h” da manhã. Se acalma e respira fundo. Seca o suor do rosto com as mãos e procura pelos chinelos, mas não os acha. Descalço, vai até a cozinha e toma uma pouco de água. “Esse sonho de novo!” – murmura para si mesmo. Volta para o quarto, mas não consegue dormir. Fica virando na cama por um bom tempo tentando pegar no sono, mas não consegue. Olha para o relógio de novo: 4:45h. Desiste de voltar a dormir e vai tomar banho. Em breve seria hora de levantar mesmo. Toda vez que tinha esse sonho acontecia à mesma coisa. Acordava assustado e não conseguia voltar a dormir.
Tomou um banho demorado. Aproveitou para relaxar debaixo da água quente. Se pudesse, ficaria lá para sempre. Estava frio naquele dia. Na verdade, as últimas duas semanas foram muito frias, e pelo jeito essa que começava também seria. Enquanto estava debaixo do chuveiro, começou a repassar tudo o que teria de fazer durante o dia. O que não o deixou nem um pouco mais animado.
Assim que saiu do banheiro, pode ouvir o barulho do rádio ligado. “5:00h” piscava intermitente no visor do aparelho. Uma voz jovem de mulher dava a previsão do tempo para aquele dia. Ele vestia as meias quando ouviu a moça falar que a massa de ar frio continuava sobre toda a região, fazendo com que a temperatura da região metropolitana da cidade ficasse até dois graus mais baixos do que a média estimada para aquela época do ano. “Não é preciso ser meteorologista para saber disso. Basta olhar pela janela”, pensou com desdém.
Correu até a cozinha, tomou um copo de café do dia anterior e algumas bolachas que achou por acaso dentro do armário. Olhou no relógio. O relógio digital do pulso marcava que ele estava atrasado. Precisava chegar mais cedo no trabalho. Apanhou mochila, vestiu a jaqueta e já ia fechando a porta de casa quando o telefone tocou. Ficou ali, paralisado, com a chave na mão e os olhos vidrados no telefone. Ele continuava a tocar. “Atendo ou não?”, ele hesitava frente ao dilema. Decidiu que a secretária-eletrônica se incumbisse da tarefa de atender a ligação. Se fosse muito importante ligariam em seu celular. Trancou a porta, pegou o elevador e deixou o som do telefone desaparecer enquanto descia.
O telefone logo se calou. Porém, alguns instantes depois ele voltou a tocar de forma incansável. Finalmente, caiu na caixa postal. Uma voz pré-programada começou a falar, dizendo o número do telefone e a impossibilidade de seu proprietário atender aquela ligação naquele momento. Logo o som do “bip” soou. “Alô? Você está ai? Se estiver atenda! Tentei te ligar no seu celular, mas caiu direto na caixa postal. Escuta, preciso falar com você urgente. Tenho más notícias… Aconteceu uma coisa bem chata. Ele morreu… hoje de madrugada. Alô? Você está ai? Droga!”, desligou.
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